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‘E eu via trezentos, trezentos mil, trinta milhões, três mil milhões…’

Andrés Vázquez de Prada

Etiquetas: Direcção espiritual, Doutrina, Formação, História, Juventude, Catequese
Nos inícios de 1933, São Josemaria deu a primeira aula de formação, daquilo a que depois se chamariam “círculos de São Rafael”. Os círculos de São Rafael são o eixo ao redor dos quais se organizam os outros meios de formação tradicional (humana, espiritual e doutrinal-religiosa).

O fundador deu o primeiro círculo de São Rafael, no dia 21 de Fevereiro de 1933, a três estudantes: Juan Jiménez Vargas (na imagem), um dos primeiros membros do Opus Dei, e dois amigos seus.
O fundador deu o primeiro círculo de São Rafael, no dia 21 de Fevereiro de 1933, a três estudantes: Juan Jiménez Vargas (na imagem), um dos primeiros membros do Opus Dei, e dois amigos seus.
No sábado 21 de Janeiro, Juan Jiménez Vargas, então um jovem estudante de Medicina, apresentou-se com dois amigos para o Padre Josemaria lhes dar uma aula de formação religiosa (também chamados círculos de São Rafael). A reunião teve lugar no asilo de Porta Caeli, numa sala cedida pelas freiras

O trabalho de formação cristã da juventude ficaria sob o patrocínio de São Rafael; dele sairiam vocações para a Obra, que seriam colocadas sob a protecção de S. Miguel, a fim de serem formadas espiritual e humanamente. Quanto aos pais e mães de família que participassem nas tarefas apostólicas, ou fizessem parte da Obra, teriam como padroeiro S. Gabriel.

Ultimamente tinha chegado à conclusão de que o apostolado com jovens não devia funcionar como uma associação, fosse de que género fosse, mas seria levado a cabo numa academia de estudos, com ensino privado (1). Antes disso, contudo, produziu-se na vida do Padre Josemaria uma alteração que, embora à primeira vista pouco tenha a ver com o trabalho de S. Rafael, está intimamente ligado ao começo da formação de jovens estudantes.

Depois de fazer repetida oração ao Senhor - lê-se numa anotação de 9 de Dezembro de 1932 -, encontrei de modo providencial um andarzito decente para viver com a minha família. Deo gratias. Pedi um empréstimo à “Corporação”, que pagarei, tal como o outro, no prazo de um ano. Assim posso mudar de casa.

O andar era um rés-do-chão alto, situado no número 4 da rua de Mártínez Campos. O encargo anual era de 1 380 pesetas e a renda de um mês devia ser paga por adiantado no início do anterior (3). Alguma vantagem teria este andar para o Padre Josemaria entoar um Deo gratias. D. Dolores voltou a mudar os móveis. Desta vez para um andar amplo, onde poderiam sobressair, porque na Rua de Viriato nem sequer havia espaço para as cadeiras. E foi assim que, sem esperar pelo momento em que disporia de uma academia, começou a reunir-se com sacerdotes e estudantes; era ali que tinham as suas tertúlias e que lhes dava palestras de formação.
S. Josemaria com alguns dos jovens que participavam nos meios de formação nos começos do Opus Dei.
S. Josemaria com alguns dos jovens que participavam nos meios de formação nos começos do Opus Dei.

As 1380 pesetas que se comprometeu a pagar anualmente não nos permitem presumir que tenha havido melhorias na situação económica dos Escrivá. Basta registar um episódio que teve lugar poucos dias depois de assinar o contrato de arrendamento:

Ontem o meu relógio de bolso parou, conta o Padre Josemaria, o que para mim constituía um problema: porque não tenho outro relógio e porque o meu ‘capital’ ascende actualmente a setenta e cinco cêntimos […]. Falando com o meu Senhor, sugeri-lhe que o meu Anjo da Guarda, a quem deu mais talento que a todos os relojoeiros, me arranjasse o relógio. Pareceu não me ouvir, porque voltei a mexer e a tocar e retocar no relógio avariado, em vão. Então […], ajoelhei-me e comecei um Pai Nosso e uma Ave Maria, que me parece que não cheguei a terminar, porque peguei novamente no relógio, toquei nos ponteiros… e começou a andar! Dei graças ao meu bom Pai (4).

A pobreza - minha grande senhora, chamava-lhe – presidia a toda a sua vida e presidiu aos começos do trabalho de São Rafael, o apostolado com os jovens. O contrato de arrendamento era de 10 de Dezembro. Pois bem, vejamos quanto dinheiro tinha em fins de Novembro.

Por aqueles dias, encontrou à porta da escola do Patronato dos Doentes uma imagem da Imaculada Conceição que tinha sido deitada fora e estava suja de lama. O Padre Josemaria costumava apanhar as estampas religiosas atiradas à rua para depois as queimar em casa; mas esta guardou-a, com o pressentimento de que se tratava de uma ofensa, de uma folha de catecismo arrancada por ódio. Por isso – diz numa Catarina – não vou queimar a pobre imagem - um mau desenho, em mau papel e rasgada: - vou guardá-la, coloco-a numa boa moldura, quando tiver dinheiro… e, quem me diz que não se dará culto de amor e desagravo, com o tempo, à “Virgem do Catecismo”! (5).
Imagem de Porta Caeli, asilo para crianças pobres, na época de S. Josemaria (esquerda) e na actualidade (direita).
Imagem de Porta Caeli, asilo para crianças pobres, na época de S. Josemaria (esquerda) e na actualidade (direita).
E no dia 2 de Dezembro, uma semana antes de vencer a renda do novo andar, sem dinheiro para uma pequena moldura, relata a pobreza evangélica, sem se lamentar nem se ufanar:
Estou – mais do que nunca – sem um cêntimo. A nossa pobreza (a minha grande senhora, a pobreza) é tão real, desde há anos, como a daqueles que pedem na rua. Somos alimentados e vestidos (sem nada de supérfluo e mesmo sem alguma coisa do necessário) pelo nosso Pai que está nos céus, o mesmo que alimenta e veste as aves, conforme diz o Sto Evangelho. Não me preocupa nada, nada, nada, esta situação económica. Estamos habituados a viver por milagre (6).

Conseguiu um empréstimo para o andar; e conseguiu uma moldura para a estampa. Em troca deste favor e desta homenagem, pediu a Nossa Senhora que lhe obtivesse uma catequese. A Virgem não se fez rogar muito.
O Padre Josemaria conhecia bem os bairros que se estendiam entre Tetuán de las Victorias e o Hospital do Rei. Grupos de barracas, espalhadas entre casotas miseráveis, formavam a “La Ventanilla” ou “Barriada de los Pinos” (7). Em 1927, as Missionárias da Doutrina Cristã construíram em Los Pinos o Colégio do Divino Redentor para os filhos daquela pobre gente. O colégio ficava num vale; quando chovia, as águas dos arredores desciam sobre ele em torrente.

«Certa manhã, de que me lembro muito bem – conta a Irmã San Pablo – porque tinha caído um nevão muito forte e estava tudo coberto de branco, vimos da sala de recreio da Comunidade, que ficava no andar de cima, aproximarem-se do colégio dois sacerdotes vestidos de batina e capa. Era cedo, pois estava tudo branco e limpo; depois convertia-se tudo num lamaçal. Era o Padre Josemaria – acompanhado de outro sacerdote chamado Pe. Lino – que vinha pedir que o deixássemos organizar uma catequese no Colégio” (8).

A terça-feira, 17 de Janeiro, foi o dia da visita a que se refere a freira, como se lê nos Apontamentos.
Imagem do oratório de Porta Caeli
Imagem do oratório de Porta Caeli

Dia 19 de Janeiro de 1933 […]. No último Domingo estive em Pinos Altos ou Los Pinos, onde há um colégio de religiosas, no qual teremos, a partir do próximo dia 22, a nossa catequese. Na terça-feira, apesar do grande nevão, Lino e eu fomos ver o local e cumprimentar as freirinhas, que têm muito bom espírito, e o Capelão. Ficaram pasmados por nos ver chegar apesar da neve: com tão pouca coisa conquistámos o Senhor (9).

Um estudante de Medicina
Nessa altura o grupo de seguidores do Padre Josemaria estava muito minguado. Uns tinham-se ido embora de Madrid. Outros sofreram doenças e tribulações: e outros cansaram-se de o seguir porque tinham um querer sem querer (10). Nessas circunstâncias, foi providencial o aparecimento de um estudante de Medicina chamado Juan Jiménez Vargas.

O Padre Josemaria falou com ele com ele duas ou três vezes. Na segunda conversa, a 4 de Janeiro de1933, expôs ao estudante o panorama sobrenatural da Obra. Atrás desta vocação vieram uns quantos amigos. Os amigos de Juan eram gente com ardor patriótico, assídua aos actos de propaganda política, que costumavam celebrar-se aos domingos, que era precisamente o dia da catequese.
São Josemaria com Juan Jiménez Vargas que, então, era estudante de medicina
São Josemaria com Juan Jiménez Vargas que, então, era estudante de medicina
Alguma coisa terá acalmado interiormente esses trepidantes activistas, levando-os a decidir que faziam mais falta na catequese do que nas reuniões políticas. A primeira visita ao bairro de los Pinos ficou marcada para domingo, 22 de Janeiro.

Entretanto, o Padre Josemaria já tinha começado a trabalhar as almas daquele grupo de estudantes. No sábado 21 de Janeiro, Juan apresentou-se com dois amigos para o Padre Josemaria lhes dar uma aula de formação religiosa. A reunião teve lugar no asilo de Porta Caeli, numa sala cedida pelas freiras:

No Sábado passado, com três rapazes e em Porta Caeli, dei começo, g. a. D., à obra patrocinada por S. Rafael e S. João. Depois da palestra, fiz exposição simples, e dei-lhes a bênção com o Senhor: reunir-nos-emos às quartas-feiras (11).

Juan ficou impressionado com a fé e a devoção manifestas nos gestos e nas orações litúrgicas, “sobretudo na maneira de segurar a custódia e dar a Benção” (12). Anos mais tarde, o sacerdote explicaria por onde andava o seu pensamento ao dar aquela bênção do Santíssimo:

Ao terminar a aula, fui à capela com aqueles rapazes, peguei no Senhor sacramentado na custódia, elevei-a, abençoei aqueles três…, e vi trezentos, trezentos mil, três milhões, três mil milhões…, brancos, negros, amarelos, de todas as cores, de todas as combinações que o amor humano pode fazer. E fiquei aquém, porque é uma realidade passado quase meio século. Fiquei aquém, porque o Senhor foi muito mais generoso (13).


Fonte de todo o Relato: Biografia escrita por Andrés Vázquez de Prada

NOTAS:

(1)-Durante o retiro espiritual em Segóvia, em 1932, escreveu acerca do apostolado com jovens universitários, que tal trabalho se faria sob a protecção de Santa Maria da Esperança e o patrocínio do arcanjo São Rafael. Isto – agora e depois – sem formar associações de género algum: à base de academias (ibidem, n. 1697). Ideia que repete noutra Catarina: A obra de São Rafael e São João far-se-á sempre nas nossas academias, sem formarmos qualquer espécie de associação com estudantes (ibidem, 921).

(2)-Ibidem, n. 890.

(3)-Cópia do contrato de arrendamento, AGP, RHF, D-15113. Diz o contrato “casa da rua de Francisco Giner (anterior Martínez Campos), num. 4 Sobr. Esq.” A renda era de 115 ptas. A 3ª das “Condições do contrato” estabelecia que; “O atraso de quatro dias no pagamento da renda será suficiente para requerer o despejo”.

(4)-Apontamentos, n. 892.

(5)-Ibidem, n.883.

(6)-Ibidem, n.884.

(7)-Nos seus Apontamentos Íntimos de 18 de Julho de 1932, referindo-se à visita que fez ao Pe. José María Somoano, já quase agonizante, escreve: O médico de serviço disse que estávamos a comprometê-lo, tive de me vir embora do Hospital do Rei, depois de confessar uns meninos em “La Ventanilla”, fui a casa do Pe. Norberto (ibidem, n. 787).

(8)-Cf. Irmã San Pablo Lemus y González de la Rivera, AGP; RHF, T-o5833; e Pilar Angela Hernando Carratero, AGP, RHF, T-05250, p.1.

(9)-Apontamentos, n. 907.

(10)-Ibidem, n. 863.

(11)-Ibidem, n.913.

(12)-Juan Jiménez Vargas, AGP, RHF, T 04152/1, p.19. Outro dos estudantes presentes era José María Valentín Gamazo, cf. AGP, RHF, T-02710.

(13)-Cf. AGP, P04 1975, p.278. “O padre disse-nos em muitas ocasiões – comenta D. Álvaro del Portillo – que ao dar a bênção do Santíssimo, não viu apenas três rapazes: viu três mil, trezentos mil, três milhões… brancos, negros, amarelos, de todas as línguas e de todas as latitudes” (Instrução 9-I-35, nota 25)