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A experiência da dor
Paola Binetti
O sofrimento experimentado por S. Josemaria na sua própria família foi um modo prático de adquirir a maturidade que outros só alcançam passados muitos anos.
Embora a dor seja uma das experiências mais comuns da vida, surpreende sempre e exige-nos continuamente que aprendamos e nos adaptemos às novas circunstâncias. Ninguém pode considerar-se “perito” em dor, que sempre tem uma dimensão de originalidade: na forma como se manifesta, nas suas causas, nas diversas reacções que desencadeia. Muitas vezes, sofremos profundamente por motivos e razões que nunca esperávamos. O Santo Padre João Paulo II escreveu: «O sofrimento humano suscita compaixão, também suscita respeito e, de certo modo, amedronta. Com efeito, nele se contém a grandeza de um mistério específico […] o homem, no seu sofrimento, é um mistério inatingível» 1.
A principal peculiaridade da dor humana é que ela coloca uma interrogação existencial. «Dentro de cada sofrimento experimentado pelo homem, e também na profundidade do mundo do sofrimento, aparece inevitavelmente a pergunta: porquê? É uma pergunta acerca da causa, da razão, da finalidade (para quê), em definitivo acerca do sentido» 2. Na verdade, quando se procura o sentido da dor, o ser humano questiona-se sobre o sentido da sua própria existência e tenta procurar a dimensão e o significado da sua própria liberdade. Posso rejeitar a dor? Posso, por mero acaso, fixar um distanciamento da dor, eliminá-la? A dor imprime à vida o seu sentido efémero» 3. Esta experiência humana leva-nos a procurar a ajuda de outras pessoas e, por sua vez, a oferecer a nossa assistência. A experiência da dor ensina-nos a prestar mais atenção às outras pessoas4. A dor marca a diferença entre uma pessoa madura e equilibrada, capaz de enfrentar obstáculos e situações difíceis, e uma pessoa que se deixa levar e consumir pelas suas próprias emoções e sensações.
A interacção mútua entre a dor e o amor
«Não esqueças que a Dor é a pedra de toque do Amor» 5.
Esta afirmação incisiva e profunda de S. Josemaria Escrivá está relacionada com as diferentes reacções perante a dor. Há uma relação entre o modo como cada pessoa vive a dor e a sua forma de amar, porque só se aceita a dor quando se percebe que o seu sentido é o amor. Só assim se pode chegar a exclamar: «Bendita seja a dor. Amada seja a dor. Santificada seja a dor […] Glorificada seja a dor! Nos escritos de S. Josemaria, o mistério da dor é uma pedra de toque constante, converte-se em ocasião de encontro cara a cara com Deus, que se fez Homem para nos ensinar a viver como homens. Ao eleger a Encarnação, Jesus Cristo quis experimentar todo o sofrimento humanamente possível para nos ensinar que o amor pode superar todas as espécies de dor. Numa das passagens de Caminho, S. Josemaria diz: Todo um programa para frequentar com aproveitamento a cadeira da dor, nos é dado pelo Apóstolo: «spe gaudentes» - na esperança, alegres; in tribulatione patientes - pacientes, na tribulação; orationis instantes - na oração, perseverantes » 7.
A dor é um ponto de encontro entre a alegria da esperança e a necessidade da oração. Os cristãos aceitam a dor com a esperança posta numa alegria futura. São plenamente conscientes das suas limitações e confiam na ajuda que se implora a Deus na oração. Não se trata de um convencimento da capacidade própria de enfrentar as dificuldades por si próprio, nem de adoptar a posição pessimista daquele que pensa que o sofrimento é a última e inevitável estação no caminho da vida, «Se sabes que essas dores – físicas ou morais – são purificação e merecimento, bendi-las» 8.
O sofrimento é um cruzar de caminhos, um lugar de passagem; não é nunca a estação final. Assim, a oração converte-se num momento importante, onde o sofrimento encontra o seu sentido e, com a graça de Deus, se converte em alegria9. O efeito catártico da oração faz-se realidade, pois, cada vez que o homem reza, experimenta a misericórdia de Deus e compartilha as suas preocupações e problemas, recebendo ao mesmo tempo um sinal quase tangível do seu Amor. «Meu Deus, ensina-me a amar! Meu Deus, ensina-me a orar!» 10.
A relação entre a dor e o amor é muito forte. Aqueles que amam e que se «forjam no fogo da dor» encontram a alegria 11. «O amor é ainda a fonte mais plena para a resposta à pergunta acerca do sentido do sofrimento» 12. S. Josemaria costumava dizer: «Quero-te feliz na Terra. Não o serás se não perderes esse medo à dor. Porque enquanto ‘caminhamos’, na dor está precisamente a felicidade» 13. Esta afirmação é tão marcante que define o caminho para a felicidade, para o fim último do homem. Contudo, há momentos neste percurso em que a experiência da dor forja a vida de um homem. Não se trata já de uma questão de aceitação ou recusa da dor, mas de aprender a considerar o sofrimento como parte da nossa própria existência e como parte do plano de Deus para cada um de nós.
«O sofrimento constitui também um chamamento que manifesta a grandeza moral do homem, a sua maturidade espiritual» 14. Felizmente, com a sua liberdade e racionalidade o homem pode enfrentar com êxito os acontecimentos dolorosos. Para que o possa fazer, deve alcançar um nível mais elevado de maturidade pessoal, o que não se consegue de modo passivo nem sequer pode considerar-se como definitivamente atingido. É necessário fazer uso de todos os recursos espirituais e adoptar uma atitude apropriada. Como afirma Viktor Frankl, a capacidade de sofrer faz parte da própria educação, é uma fase importante do crescimento interior e também de auto-organização15.
Actualmente, a incapacidade de enfrentar a dor e o sofrimento, físico ou espiritual, resulta precisamente da falta de “cultura do sofrimento”. De início são os pais que temem confrontar os seus filhos com o sacrifício. Consequentemente, são tentados a dar-lhes tudo e de forma imediata. Pensam que sempre haverá, mais adiante, tempo para sofrer ou têm a ilusão de que esses momentos nunca chegarão para eles16. É difícil entender como uma pessoa pode resistir ao aparecimento imprevisto de uma dor intensa sem que a tenha experimentado antes. Na realidade, estas pessoas são mais propensas a sofrer crises nervosas e depressões.
O sofrimento experimentado por S. Josemaria na sua própria família foi um modo muito prático de adquirir a maturidade que outros só alcançam passados muitos anos. A sua biografia é exemplar. Esteve seriamente doente na infância; teve de enfrentar a morte de três irmãs; viu o sofrimento de seu pai perante as consequências de uma crise económica; viu-se obrigado a mudar para outra cidade com a consequente alteração do estilo de vida. Depois, voltou a experimentar o sofrimento no seminário, dor que, unida a muitas horas de oração frente ao Santíssimo Sacramento, o fez amadurecer espiritualmente. As múltiplas provações internas e externas que o Senhor lhe enviou, exigiram uma grande dose de espírito de sacrifício, incluindo a perseguição que sofreu ao alicerçar o Opus Dei. Além disso, sofreu de diabetes, doença que o minou durante muitos anos. De certa forma poderíamos dizer que nada lhe foi poupado. S. Josemaria sempre teve a capacidade de entender o sofrimento e a dor alheios devido à sua própria experiência pessoal, e não simplesmente por conhecimento teórico. Enfrentou o sofrimento com fé e valentia, e com grande paciência humana e sobrenatural.
Os doentes são um tesouro
«As testemunhas da Cruz e da Ressurreição de Cristo transmitiram à Igreja e à humanidade um Evangelho específico do sofrimento. O próprio Redentor escreveu este Evangelho; em primeiro lugar, com o seu sofrimento assumido por amor, a fim de que o homem ‘ não pereça, mas tenha a vida eterna’ Este sofrimento, juntamente com a palavra viva do seu ensino, tornou-se uma fonte abundante para aqueles que participaram nos sofrimentos de Jesus na primeira geração dos seus discípulos e confessores, e depois, nas que se foram sucedendo ao longo dos séculos» 17.
O Santo Padre João Paulo II acredita que aqueles que sofrem são protagonistas privilegiados do Evangelho da Dor, que Jesus Cristo em pessoa começou a escrever com a sua própria dor. Cada pessoa que sofre torna este Evangelho vivo com a sua própria dor pessoal. É um Evangelho vivo que nunca estará terminado, e que nos habilita verdadeiramente a reconhecer o próprio Deus em cada um dos que sofrem. Na sua profecia do Juízo Final, Nosso Senhor diz-nos: «Dirá então o Rei aos da Sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, entrai na herança do Reino que vos está preparado desde o princípio do mundo. Porque […] estava doente e visitastes-Me […] Senhor, quando é que Te vimos doente […] e Te fomos ver? […] E o Rei responder-lhe-á: em verdade vos digo: Tudo o que fizestes a um destes Meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes» 18. Consciente da identificação entre Cristo e os enfermos, S. Josemaria tentou sempre transmitir às pessoas que o rodeavam, um carinho especial pelos doentes. Repetia constantemente que amava Deus e os outros com o mesmo coração. Sabia como amar os outros através de Deus e aqueles, por sua vez, aproximavam-no mais de Deus.
Os doentes ocupavam um lugar especial no coração de S. Josemaria, porque via em cada um deles a imagem de Cristo que sofre. Por esse motivo, cada doente o atraía, de modo misterioso e forte, à corredenção. Na oração, imaginava-se a si próprio como um dos Apóstolos, com o desejo de reparar pela fuga deles no momento da Cruz. Para reparar pelas deserções, que tanto tinham aumentado os sofrimentos de Jesus, desejava que os doentes fossem amados do mesmo modo como uma mãe ama com ternura o seu filho, e que nunca ficassem sozinhos. «Como sempre, quando um filho meu está doente, digo aos que vivem a seu lado que devem tratá-lo de tal modo, que não sinta a falta dos cuidados da mãe que está longe, e que, naqueles momentos, devemos ser como uma mãe para esse meu filho, tratando-o como o teria feito a sua mãe». E noutra ocasião, «Embora sejamos pobres, nunca devemos poupar nada no cuidado dos nossos irmãos doentes. Se fosse necessário, roubaríamos um pedacinho do Céu para eles e o Senhor perdoava-nos» 19.
«Criança – Doente. – Ao escrever estas palavras, não sentis a tentação de as pôr com maiúscula? É que, para uma alma enamorada, as crianças e os doentes são Ele» 20. Os doentes são um tesouro, costumava dizer, porque ao viver o ascetismo sorridente, que era tão querido por S. Josemaria, o doente pode converter o seu padecimento em oração. Converte-se também num tesouro para os outros porque, ao tratarem dele, praticam a virtude da caridade e enriquecem-se na medida em que o cuidado que prestam é o melhor que podem oferecer. A doença é um tesouro para a Igreja, porque cada pessoa doente participa da Paixão de Nosso Senhor na Cruz 21. O doente em estado grave, ao aproximar-se o momento do seu encontro pessoal com Deus, dirige-se para esse momento de um modo diferente. Este encontro tem um efeito de profunda purificação e, ao mesmo tempo, de paz. "Este homem está a morrer. Já não há nada a fazer […]" - Foi há anos, num hospital de Madrid. Depois de se confessar, quando o sacerdote lhe dava a beijar o seu crucifixo, aquele cigano dizia aos gritos, sem que conseguissem calá-lo: - Com esta minha boca imunda não posso beijar o Senhor! - Mas tu vais dar-Lhe, já a seguir, um grande abraço e um grande beijo no Céu! [...] Já viste uma maneira mais formosamente tremenda de manifestar a contrição?» 22.
Este episódio da vida do Fundador resume de forma cabal a sua atitude perante a morte e a dor. O valor purificador do sofrimento do cigano adquire uma dimensão ilimitada e, juntamente com a graça do sacramento da Penitência, a morte perde o espectro do temor. Converte-se, pelo contrário, na oportunidade que a fé de cada homem espera: a de poder contemplar Deus face a face, não como Juiz, mas como Pai amoroso que nos espera para nos abraçar.
Profissionais que estão em contacto diário com a dor e o sofrimento
Não é fácil encarar diariamente a situação de pessoas que sofrem e, ao mesmo tempo, manter um interesse vivo pelos seus problemas e pelas suas tristezas. Nestas circunstâncias corre-se o risco de tratar a dor de maneira anónima, tentando aliviar de modo falso a atmosfera em que devem viver diariamente os profissionais da medicina.
Podem encontrar-se enfermeiras muito competentes, a quem a dor já não afecta profundamente. Em vez de ver o doente como um ser humano, com uma visão integral das suas carências, centram a sua preocupação no que é preciso para responder às necessidades clínicas da pessoa. Os médicos também incorrem frequentemente no perigo de considerar os doentes sob um ponto de vista meramente pragmático, limitando a sua atenção ao diagnóstico e às opções terapêuticas.
Tirando o contacto com o doente durante as fases do diagnóstico e planificação do tratamento, os médicos são invisíveis, absorvidos por outras actividades administrativas, cursos, reuniões com colegas e conferências.
As palavras do Fundador do Opus Dei a um cirurgião ortopédico são significativas. O médico perguntou-lhe como era possível fugir à rotina na sua profissão: «Vive na presença de Deus, como certamente já fazes. Ontem visitei uma pessoa doente, a quem quero com todo o meu coração de pai, e compreendo o grande trabalho sacerdotal que vós, médicos, fazeis! Mas não te envaideças com isto, porque todos temos alma sacerdotal! Precisais de pôr em prática a vossa alma sacerdotal! Quando lavas as mãos, quando usas a tua bata branca, quando enfias as luvas, pensa em Deus e no seu sacerdócio real, a que se refere S. Pedro. Só assim evitarás a rotina no trabalho. Farás bem ao corpo e também à alma» 23.
O trabalho dos médicos e das enfermeiras é uma realização ininterrupta e intangível daquilo que Nosso Senhor praticou durante a sua vida na terra. Os seus milagres assim o demonstram: os cegos podiam ver; os mudos podiam falar; os surdos podiam ouvir; os coxos, caminhar. Curou os epilépticos e os leprosos, e até ressuscitou mortos. Um médico, ao ler o Evangelho, não pode deixar de reparar na profunda compaixão de Jesus quando se aproximava dos doentes, tomando Ele a iniciativa de ir ao seu encontro e atendendo as suas súplicas. Contudo, o Senhor estabeleceu uma condição: fé, uma fé humana e sobrenatural n’Ele.
No Evangelho, quando um pai pergunta porque é que os Apóstolos não tinham conseguido curar o seu filho, Jesus responde que foi por causa da sua falta de fé 24. Hoje em dia, os médicos esquecem frequentemente a necessidade fundamental de estabelecer uma relação de verdadeira confiança com os doentes. E estes sentem-se estimulados a pôr a sua confiança mais nos medicamentos do que na pessoa que os administra. A burocratização inadequada da prática médica pode efectivamente destruir a relação médico-doente e reduzi-la a um mero intercâmbio de informação e prescrições, onde as estatísticas ocupam o lugar da comunicação pessoal.
S. Josemaria Escrivá recordava aos médicos a dimensão única da relação pessoal com o doente, e exortava-os a evitar cair na rotina do trabalho. Insistia em que mantivessem o seu coração em sintonia com o coração de Deus. Não se tratava de sentimentalismo, mas da forte convicção de que não se pode exercer a profissão médica como se fosse qualquer outra profissão, nem sequer unicamente quando se é movido pelo amor à ciência.
Numa ocasião, algumas enfermeiras perguntaram-lhe como podiam melhorar o seu trabalho, e ele respondeu: «Precisamos de muitas enfermeiras cristãs. O vosso trabalho é um sacerdócio, muito mais do que o trabalho de um médico. Disse muito mais porque tendes a delicadeza, a proximidade de estar sempre perto do doente. Creio que ser enfermeira requer uma verdadeira vocação cristã. Para aperfeiçoar esta vocação, é necessário estar cientificamente preparado e ter uma grande delicadeza» 25.
Noutra oportunidade, explicitou ainda melhor a afirmação anterior: «Que Deus vos abençoe! Pensai que estais a tratar da Sagrada Família de Nazaré e que o doente é Jesus [...] Ou pensai que é a sua Mãe. Tratai-os com amor, com cuidado, com delicadeza. Velai para que não lhes falta nada, principalmente a ajuda espiritual [...]. Rezo por vós, porque penso no bem ou no mal que podeis fazer. A uma pessoa que está espiritualmente preparada, pode-se falar com franqueza do seu estado. Mas se não for esse o caso, deveis aproveitar qualquer oportunidade para a ajudar a aproximar-se da Confissão e a receber a Comunhão. E chegará o momento em que a pessoa que está doente, desejará que lhe digam que vai para o Céu. Eu próprio conheço alguns exemplos muito bonitos» 26.
S. Josemaria acentuou, mais do que uma vez, a dimensão sacerdotal deste trabalho. «Impressiona-me quando me dizem uma coisa que muitos de vós já sabeis. Os médicos devem fazer o que fazem os bons confessores, porém no domínio material. Os médicos devem preocupar-se não só com o estado físico do doente mas também com a sua alma» 27.
O prestígio profissional, uma maneira de dar glória a Deus
O Fundador do Opus Dei sabia como aplicar o chamamento universal à santidade à profissão médica. Para procurar a santidade no trabalho, devemos realizar as tarefas com perfeição, com competência profissional. «Àquele que puder ser sábio, não lhe perdoamos que o não seja»28. «A santidade compõe-se de heroísmos. – Por isso, no trabalho pede-se-nos o heroísmo de ‘acabar’ bem as tarefas que nos cabem, dia após dia, ainda que se repitam as mesmas ocupações. Se não, não queremos ser santos!» 29.
S. Josemaria também se referia frequentemente à necessidade de o médico ter alma sacerdotal. «Afirmas que vais compreendendo a pouco e pouco o que quer dizer ‘alma sacerdotal’... Não te zangues se te respondo que os factos demonstram que o compreendes apenas em teoria. - Todos os dias te acontece o mesmo: ao anoitecer, no exame, tudo são desejos e propósitos; de manhã e à tarde, no trabalho, tudo são dificuldades e desculpas. - Assim vives o ‘sacerdócio santo, para oferecer vítimas espirituais, agradáveis a Deus por Jesus Cristo’?» 30.
Compreendia também a relação entre a santidade e os interesses da inteligência humana: «Se tens de servir a Deus com a tua inteligência, para ti estudar é uma obrigação grave» 31 e «Dá um motivo sobrenatural à tua actividade profissional de cada dia, e terás santificado o trabalho» 32. E, dirigindo-se, uma vez mais, a médicos, S. Josemaria dizia: «Imitai-o, e assim sereis, cada dia, mais delicados, mais cristãos, não só mais doutos, mais até do que um grande perito, mas mais como um dos discípulos de Cristo» 33. (...)
S. Josemaria animava enfermeiras e médicos a comparar o seu trabalho com o de um sacerdote. Falava da sua ocupação qualificando-a como missão sagrada, pela sua proximidade com os que sofrem, que são imagem de Cristo na Cruz. O seu carinho e atenção recordam-nos o amor compassivo de Jesus pelos doentes durante a sua vida na terra. Por isso, S. Josemaria se referiu com clareza à necessidade de viver a vocação de médico e de enfermeira com uma atitude verdadeiramente profissional: com saber científico, com o cuidado amoroso de uma mãe e com esperança humana e sobrenatural.
É realmente difícil entender a doença se não se experimentou o seu peso, pelo menos uma vez na vida, e se não se tiverem vivido esses momentos em que aparece a tentação de cair na ira ou na rejeição. S. Josemaria tem a capacidade de falar tão clara e caritativamente acerca do sofrimento e da dor porque os experimentou na sua própria vida. Conseguiu conviver com o sofrimento e a dor precisamente porque acreditava no amor de Deus. Confiava em Deus com a mesma confiança que tem um menino pequeno no seu Pai. Transmitia claramente esta atitude na sua pregação e as suas acções falavam tão eloquentemente como as suas palavras. Quem recorrer a S. Josemaria, confiando-lhe a sua dor e a sua tristeza, aprenderá a confiar o seu sofrimento a Deus.
Notas
1. JOÃO PAULO II, Carta Apostólica, Salvifici doloris, 4.
2. Idem, 9.
3. C.S. LEWIS, Diario di un dolore, Milano 1990, p. 40.
4. Cf. Forja, 987.
5. Caminho, 439.
6. Idem, 208.
7. Idem, 209.
8. Caminho, 219.
9. Cf. Salvifici doloris, 18.
10. Forja, 66.
11. Cf. Forja, 816.
12. Cf. Salvifici doloris, 13.
13. Caminho, 217.
14. Cf. Salvifici doloris, 14.
15. Cf. V. FRANKL, Homo Patiens, Brezzo di Bodero 1979, p. 98.
16. Cf. A. MACINTYRE, Tras la virtud, Barcelona 1987, pp. 34-35.
17. Cf. Salvifici doloris, 25.
18. Mt. XXV, 34-41.
19. Cf. G. HERRANZ, "Sin miedo a la vida y sin miedo a la muerte. Palabras de Monseñor Josemaría Escrivá de Balaguer y Albás a médicos y enfermos", in: En memoria de Mons. Josemaría Escrivá de Balaguer, cit., p. 164.
20. Caminho, 419.
21. Cf. P. URBANO, El hombre de Villa Tevere, Barcelona 1994, p. 235.
22. Via Sacra, III, 4.
23. Cf. G. HERRANZ, "Sin miedo a la vida…”, cit., pp. 158-159.
24. Cf. Mt. XVII, 14-20.
25. Cf. G. HERRANZ, “Sin miedo a la vida…”, cit., p. 159.
26. Cf. idem, p. 161.
27. Cf. idem, p. 159.
28. Caminho, 332.
29. Sulco, 529.
30. Sulco, 499.
31. Caminho, 336.
32. Idem, 359.
33. Cf. G. HERRANZ, "Sin miedo a la vida…”, cit., p. 160.
Actas do Congreso "A grandeza da vida corriente", Vol. IX A solidariedade dos filhos de Deus, EDUSC, 2003

Paola Binetti, autora do artigo
A principal peculiaridade da dor humana é que ela coloca uma interrogação existencial. «Dentro de cada sofrimento experimentado pelo homem, e também na profundidade do mundo do sofrimento, aparece inevitavelmente a pergunta: porquê? É uma pergunta acerca da causa, da razão, da finalidade (para quê), em definitivo acerca do sentido» 2. Na verdade, quando se procura o sentido da dor, o ser humano questiona-se sobre o sentido da sua própria existência e tenta procurar a dimensão e o significado da sua própria liberdade. Posso rejeitar a dor? Posso, por mero acaso, fixar um distanciamento da dor, eliminá-la? A dor imprime à vida o seu sentido efémero» 3. Esta experiência humana leva-nos a procurar a ajuda de outras pessoas e, por sua vez, a oferecer a nossa assistência. A experiência da dor ensina-nos a prestar mais atenção às outras pessoas4. A dor marca a diferença entre uma pessoa madura e equilibrada, capaz de enfrentar obstáculos e situações difíceis, e uma pessoa que se deixa levar e consumir pelas suas próprias emoções e sensações.
A interacção mútua entre a dor e o amor
«Não esqueças que a Dor é a pedra de toque do Amor» 5.
Esta afirmação incisiva e profunda de S. Josemaria Escrivá está relacionada com as diferentes reacções perante a dor. Há uma relação entre o modo como cada pessoa vive a dor e a sua forma de amar, porque só se aceita a dor quando se percebe que o seu sentido é o amor. Só assim se pode chegar a exclamar: «Bendita seja a dor. Amada seja a dor. Santificada seja a dor […] Glorificada seja a dor! Nos escritos de S. Josemaria, o mistério da dor é uma pedra de toque constante, converte-se em ocasião de encontro cara a cara com Deus, que se fez Homem para nos ensinar a viver como homens. Ao eleger a Encarnação, Jesus Cristo quis experimentar todo o sofrimento humanamente possível para nos ensinar que o amor pode superar todas as espécies de dor. Numa das passagens de Caminho, S. Josemaria diz: Todo um programa para frequentar com aproveitamento a cadeira da dor, nos é dado pelo Apóstolo: «spe gaudentes» - na esperança, alegres; in tribulatione patientes - pacientes, na tribulação; orationis instantes - na oração, perseverantes » 7.
A dor é um ponto de encontro entre a alegria da esperança e a necessidade da oração. Os cristãos aceitam a dor com a esperança posta numa alegria futura. São plenamente conscientes das suas limitações e confiam na ajuda que se implora a Deus na oração. Não se trata de um convencimento da capacidade própria de enfrentar as dificuldades por si próprio, nem de adoptar a posição pessimista daquele que pensa que o sofrimento é a última e inevitável estação no caminho da vida, «Se sabes que essas dores – físicas ou morais – são purificação e merecimento, bendi-las» 8.
O sofrimento é um cruzar de caminhos, um lugar de passagem; não é nunca a estação final. Assim, a oração converte-se num momento importante, onde o sofrimento encontra o seu sentido e, com a graça de Deus, se converte em alegria9. O efeito catártico da oração faz-se realidade, pois, cada vez que o homem reza, experimenta a misericórdia de Deus e compartilha as suas preocupações e problemas, recebendo ao mesmo tempo um sinal quase tangível do seu Amor. «Meu Deus, ensina-me a amar! Meu Deus, ensina-me a orar!» 10.
A relação entre a dor e o amor é muito forte. Aqueles que amam e que se «forjam no fogo da dor» encontram a alegria 11. «O amor é ainda a fonte mais plena para a resposta à pergunta acerca do sentido do sofrimento» 12. S. Josemaria costumava dizer: «Quero-te feliz na Terra. Não o serás se não perderes esse medo à dor. Porque enquanto ‘caminhamos’, na dor está precisamente a felicidade» 13. Esta afirmação é tão marcante que define o caminho para a felicidade, para o fim último do homem. Contudo, há momentos neste percurso em que a experiência da dor forja a vida de um homem. Não se trata já de uma questão de aceitação ou recusa da dor, mas de aprender a considerar o sofrimento como parte da nossa própria existência e como parte do plano de Deus para cada um de nós.
«O sofrimento constitui também um chamamento que manifesta a grandeza moral do homem, a sua maturidade espiritual» 14. Felizmente, com a sua liberdade e racionalidade o homem pode enfrentar com êxito os acontecimentos dolorosos. Para que o possa fazer, deve alcançar um nível mais elevado de maturidade pessoal, o que não se consegue de modo passivo nem sequer pode considerar-se como definitivamente atingido. É necessário fazer uso de todos os recursos espirituais e adoptar uma atitude apropriada. Como afirma Viktor Frankl, a capacidade de sofrer faz parte da própria educação, é uma fase importante do crescimento interior e também de auto-organização15.
Actualmente, a incapacidade de enfrentar a dor e o sofrimento, físico ou espiritual, resulta precisamente da falta de “cultura do sofrimento”. De início são os pais que temem confrontar os seus filhos com o sacrifício. Consequentemente, são tentados a dar-lhes tudo e de forma imediata. Pensam que sempre haverá, mais adiante, tempo para sofrer ou têm a ilusão de que esses momentos nunca chegarão para eles16. É difícil entender como uma pessoa pode resistir ao aparecimento imprevisto de uma dor intensa sem que a tenha experimentado antes. Na realidade, estas pessoas são mais propensas a sofrer crises nervosas e depressões.
O sofrimento experimentado por S. Josemaria na sua própria família foi um modo muito prático de adquirir a maturidade que outros só alcançam passados muitos anos. A sua biografia é exemplar. Esteve seriamente doente na infância; teve de enfrentar a morte de três irmãs; viu o sofrimento de seu pai perante as consequências de uma crise económica; viu-se obrigado a mudar para outra cidade com a consequente alteração do estilo de vida. Depois, voltou a experimentar o sofrimento no seminário, dor que, unida a muitas horas de oração frente ao Santíssimo Sacramento, o fez amadurecer espiritualmente. As múltiplas provações internas e externas que o Senhor lhe enviou, exigiram uma grande dose de espírito de sacrifício, incluindo a perseguição que sofreu ao alicerçar o Opus Dei. Além disso, sofreu de diabetes, doença que o minou durante muitos anos. De certa forma poderíamos dizer que nada lhe foi poupado. S. Josemaria sempre teve a capacidade de entender o sofrimento e a dor alheios devido à sua própria experiência pessoal, e não simplesmente por conhecimento teórico. Enfrentou o sofrimento com fé e valentia, e com grande paciência humana e sobrenatural.
Os doentes são um tesouro
«As testemunhas da Cruz e da Ressurreição de Cristo transmitiram à Igreja e à humanidade um Evangelho específico do sofrimento. O próprio Redentor escreveu este Evangelho; em primeiro lugar, com o seu sofrimento assumido por amor, a fim de que o homem ‘ não pereça, mas tenha a vida eterna’ Este sofrimento, juntamente com a palavra viva do seu ensino, tornou-se uma fonte abundante para aqueles que participaram nos sofrimentos de Jesus na primeira geração dos seus discípulos e confessores, e depois, nas que se foram sucedendo ao longo dos séculos» 17.
O Santo Padre João Paulo II acredita que aqueles que sofrem são protagonistas privilegiados do Evangelho da Dor, que Jesus Cristo em pessoa começou a escrever com a sua própria dor. Cada pessoa que sofre torna este Evangelho vivo com a sua própria dor pessoal. É um Evangelho vivo que nunca estará terminado, e que nos habilita verdadeiramente a reconhecer o próprio Deus em cada um dos que sofrem. Na sua profecia do Juízo Final, Nosso Senhor diz-nos: «Dirá então o Rei aos da Sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, entrai na herança do Reino que vos está preparado desde o princípio do mundo. Porque […] estava doente e visitastes-Me […] Senhor, quando é que Te vimos doente […] e Te fomos ver? […] E o Rei responder-lhe-á: em verdade vos digo: Tudo o que fizestes a um destes Meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes» 18. Consciente da identificação entre Cristo e os enfermos, S. Josemaria tentou sempre transmitir às pessoas que o rodeavam, um carinho especial pelos doentes. Repetia constantemente que amava Deus e os outros com o mesmo coração. Sabia como amar os outros através de Deus e aqueles, por sua vez, aproximavam-no mais de Deus.
Os doentes ocupavam um lugar especial no coração de S. Josemaria, porque via em cada um deles a imagem de Cristo que sofre. Por esse motivo, cada doente o atraía, de modo misterioso e forte, à corredenção. Na oração, imaginava-se a si próprio como um dos Apóstolos, com o desejo de reparar pela fuga deles no momento da Cruz. Para reparar pelas deserções, que tanto tinham aumentado os sofrimentos de Jesus, desejava que os doentes fossem amados do mesmo modo como uma mãe ama com ternura o seu filho, e que nunca ficassem sozinhos. «Como sempre, quando um filho meu está doente, digo aos que vivem a seu lado que devem tratá-lo de tal modo, que não sinta a falta dos cuidados da mãe que está longe, e que, naqueles momentos, devemos ser como uma mãe para esse meu filho, tratando-o como o teria feito a sua mãe». E noutra ocasião, «Embora sejamos pobres, nunca devemos poupar nada no cuidado dos nossos irmãos doentes. Se fosse necessário, roubaríamos um pedacinho do Céu para eles e o Senhor perdoava-nos» 19.
«Criança – Doente. – Ao escrever estas palavras, não sentis a tentação de as pôr com maiúscula? É que, para uma alma enamorada, as crianças e os doentes são Ele» 20. Os doentes são um tesouro, costumava dizer, porque ao viver o ascetismo sorridente, que era tão querido por S. Josemaria, o doente pode converter o seu padecimento em oração. Converte-se também num tesouro para os outros porque, ao tratarem dele, praticam a virtude da caridade e enriquecem-se na medida em que o cuidado que prestam é o melhor que podem oferecer. A doença é um tesouro para a Igreja, porque cada pessoa doente participa da Paixão de Nosso Senhor na Cruz 21. O doente em estado grave, ao aproximar-se o momento do seu encontro pessoal com Deus, dirige-se para esse momento de um modo diferente. Este encontro tem um efeito de profunda purificação e, ao mesmo tempo, de paz. "Este homem está a morrer. Já não há nada a fazer […]" - Foi há anos, num hospital de Madrid. Depois de se confessar, quando o sacerdote lhe dava a beijar o seu crucifixo, aquele cigano dizia aos gritos, sem que conseguissem calá-lo: - Com esta minha boca imunda não posso beijar o Senhor! - Mas tu vais dar-Lhe, já a seguir, um grande abraço e um grande beijo no Céu! [...] Já viste uma maneira mais formosamente tremenda de manifestar a contrição?» 22.
Este episódio da vida do Fundador resume de forma cabal a sua atitude perante a morte e a dor. O valor purificador do sofrimento do cigano adquire uma dimensão ilimitada e, juntamente com a graça do sacramento da Penitência, a morte perde o espectro do temor. Converte-se, pelo contrário, na oportunidade que a fé de cada homem espera: a de poder contemplar Deus face a face, não como Juiz, mas como Pai amoroso que nos espera para nos abraçar.
Profissionais que estão em contacto diário com a dor e o sofrimento
Não é fácil encarar diariamente a situação de pessoas que sofrem e, ao mesmo tempo, manter um interesse vivo pelos seus problemas e pelas suas tristezas. Nestas circunstâncias corre-se o risco de tratar a dor de maneira anónima, tentando aliviar de modo falso a atmosfera em que devem viver diariamente os profissionais da medicina.
Podem encontrar-se enfermeiras muito competentes, a quem a dor já não afecta profundamente. Em vez de ver o doente como um ser humano, com uma visão integral das suas carências, centram a sua preocupação no que é preciso para responder às necessidades clínicas da pessoa. Os médicos também incorrem frequentemente no perigo de considerar os doentes sob um ponto de vista meramente pragmático, limitando a sua atenção ao diagnóstico e às opções terapêuticas.
Tirando o contacto com o doente durante as fases do diagnóstico e planificação do tratamento, os médicos são invisíveis, absorvidos por outras actividades administrativas, cursos, reuniões com colegas e conferências.
As palavras do Fundador do Opus Dei a um cirurgião ortopédico são significativas. O médico perguntou-lhe como era possível fugir à rotina na sua profissão: «Vive na presença de Deus, como certamente já fazes. Ontem visitei uma pessoa doente, a quem quero com todo o meu coração de pai, e compreendo o grande trabalho sacerdotal que vós, médicos, fazeis! Mas não te envaideças com isto, porque todos temos alma sacerdotal! Precisais de pôr em prática a vossa alma sacerdotal! Quando lavas as mãos, quando usas a tua bata branca, quando enfias as luvas, pensa em Deus e no seu sacerdócio real, a que se refere S. Pedro. Só assim evitarás a rotina no trabalho. Farás bem ao corpo e também à alma» 23.
O trabalho dos médicos e das enfermeiras é uma realização ininterrupta e intangível daquilo que Nosso Senhor praticou durante a sua vida na terra. Os seus milagres assim o demonstram: os cegos podiam ver; os mudos podiam falar; os surdos podiam ouvir; os coxos, caminhar. Curou os epilépticos e os leprosos, e até ressuscitou mortos. Um médico, ao ler o Evangelho, não pode deixar de reparar na profunda compaixão de Jesus quando se aproximava dos doentes, tomando Ele a iniciativa de ir ao seu encontro e atendendo as suas súplicas. Contudo, o Senhor estabeleceu uma condição: fé, uma fé humana e sobrenatural n’Ele.
No Evangelho, quando um pai pergunta porque é que os Apóstolos não tinham conseguido curar o seu filho, Jesus responde que foi por causa da sua falta de fé 24. Hoje em dia, os médicos esquecem frequentemente a necessidade fundamental de estabelecer uma relação de verdadeira confiança com os doentes. E estes sentem-se estimulados a pôr a sua confiança mais nos medicamentos do que na pessoa que os administra. A burocratização inadequada da prática médica pode efectivamente destruir a relação médico-doente e reduzi-la a um mero intercâmbio de informação e prescrições, onde as estatísticas ocupam o lugar da comunicação pessoal.
S. Josemaria Escrivá recordava aos médicos a dimensão única da relação pessoal com o doente, e exortava-os a evitar cair na rotina do trabalho. Insistia em que mantivessem o seu coração em sintonia com o coração de Deus. Não se tratava de sentimentalismo, mas da forte convicção de que não se pode exercer a profissão médica como se fosse qualquer outra profissão, nem sequer unicamente quando se é movido pelo amor à ciência.
Numa ocasião, algumas enfermeiras perguntaram-lhe como podiam melhorar o seu trabalho, e ele respondeu: «Precisamos de muitas enfermeiras cristãs. O vosso trabalho é um sacerdócio, muito mais do que o trabalho de um médico. Disse muito mais porque tendes a delicadeza, a proximidade de estar sempre perto do doente. Creio que ser enfermeira requer uma verdadeira vocação cristã. Para aperfeiçoar esta vocação, é necessário estar cientificamente preparado e ter uma grande delicadeza» 25.
Noutra oportunidade, explicitou ainda melhor a afirmação anterior: «Que Deus vos abençoe! Pensai que estais a tratar da Sagrada Família de Nazaré e que o doente é Jesus [...] Ou pensai que é a sua Mãe. Tratai-os com amor, com cuidado, com delicadeza. Velai para que não lhes falta nada, principalmente a ajuda espiritual [...]. Rezo por vós, porque penso no bem ou no mal que podeis fazer. A uma pessoa que está espiritualmente preparada, pode-se falar com franqueza do seu estado. Mas se não for esse o caso, deveis aproveitar qualquer oportunidade para a ajudar a aproximar-se da Confissão e a receber a Comunhão. E chegará o momento em que a pessoa que está doente, desejará que lhe digam que vai para o Céu. Eu próprio conheço alguns exemplos muito bonitos» 26.
S. Josemaria acentuou, mais do que uma vez, a dimensão sacerdotal deste trabalho. «Impressiona-me quando me dizem uma coisa que muitos de vós já sabeis. Os médicos devem fazer o que fazem os bons confessores, porém no domínio material. Os médicos devem preocupar-se não só com o estado físico do doente mas também com a sua alma» 27.
O prestígio profissional, uma maneira de dar glória a Deus
O Fundador do Opus Dei sabia como aplicar o chamamento universal à santidade à profissão médica. Para procurar a santidade no trabalho, devemos realizar as tarefas com perfeição, com competência profissional. «Àquele que puder ser sábio, não lhe perdoamos que o não seja»28. «A santidade compõe-se de heroísmos. – Por isso, no trabalho pede-se-nos o heroísmo de ‘acabar’ bem as tarefas que nos cabem, dia após dia, ainda que se repitam as mesmas ocupações. Se não, não queremos ser santos!» 29.
S. Josemaria também se referia frequentemente à necessidade de o médico ter alma sacerdotal. «Afirmas que vais compreendendo a pouco e pouco o que quer dizer ‘alma sacerdotal’... Não te zangues se te respondo que os factos demonstram que o compreendes apenas em teoria. - Todos os dias te acontece o mesmo: ao anoitecer, no exame, tudo são desejos e propósitos; de manhã e à tarde, no trabalho, tudo são dificuldades e desculpas. - Assim vives o ‘sacerdócio santo, para oferecer vítimas espirituais, agradáveis a Deus por Jesus Cristo’?» 30.
Compreendia também a relação entre a santidade e os interesses da inteligência humana: «Se tens de servir a Deus com a tua inteligência, para ti estudar é uma obrigação grave» 31 e «Dá um motivo sobrenatural à tua actividade profissional de cada dia, e terás santificado o trabalho» 32. E, dirigindo-se, uma vez mais, a médicos, S. Josemaria dizia: «Imitai-o, e assim sereis, cada dia, mais delicados, mais cristãos, não só mais doutos, mais até do que um grande perito, mas mais como um dos discípulos de Cristo» 33. (...)
S. Josemaria animava enfermeiras e médicos a comparar o seu trabalho com o de um sacerdote. Falava da sua ocupação qualificando-a como missão sagrada, pela sua proximidade com os que sofrem, que são imagem de Cristo na Cruz. O seu carinho e atenção recordam-nos o amor compassivo de Jesus pelos doentes durante a sua vida na terra. Por isso, S. Josemaria se referiu com clareza à necessidade de viver a vocação de médico e de enfermeira com uma atitude verdadeiramente profissional: com saber científico, com o cuidado amoroso de uma mãe e com esperança humana e sobrenatural.
É realmente difícil entender a doença se não se experimentou o seu peso, pelo menos uma vez na vida, e se não se tiverem vivido esses momentos em que aparece a tentação de cair na ira ou na rejeição. S. Josemaria tem a capacidade de falar tão clara e caritativamente acerca do sofrimento e da dor porque os experimentou na sua própria vida. Conseguiu conviver com o sofrimento e a dor precisamente porque acreditava no amor de Deus. Confiava em Deus com a mesma confiança que tem um menino pequeno no seu Pai. Transmitia claramente esta atitude na sua pregação e as suas acções falavam tão eloquentemente como as suas palavras. Quem recorrer a S. Josemaria, confiando-lhe a sua dor e a sua tristeza, aprenderá a confiar o seu sofrimento a Deus.
Notas
1. JOÃO PAULO II, Carta Apostólica, Salvifici doloris, 4.
2. Idem, 9.
3. C.S. LEWIS, Diario di un dolore, Milano 1990, p. 40.
4. Cf. Forja, 987.
5. Caminho, 439.
6. Idem, 208.
7. Idem, 209.
8. Caminho, 219.
9. Cf. Salvifici doloris, 18.
10. Forja, 66.
11. Cf. Forja, 816.
12. Cf. Salvifici doloris, 13.
13. Caminho, 217.
14. Cf. Salvifici doloris, 14.
15. Cf. V. FRANKL, Homo Patiens, Brezzo di Bodero 1979, p. 98.
16. Cf. A. MACINTYRE, Tras la virtud, Barcelona 1987, pp. 34-35.
17. Cf. Salvifici doloris, 25.
18. Mt. XXV, 34-41.
19. Cf. G. HERRANZ, "Sin miedo a la vida y sin miedo a la muerte. Palabras de Monseñor Josemaría Escrivá de Balaguer y Albás a médicos y enfermos", in: En memoria de Mons. Josemaría Escrivá de Balaguer, cit., p. 164.
20. Caminho, 419.
21. Cf. P. URBANO, El hombre de Villa Tevere, Barcelona 1994, p. 235.
22. Via Sacra, III, 4.
23. Cf. G. HERRANZ, "Sin miedo a la vida…”, cit., pp. 158-159.
24. Cf. Mt. XVII, 14-20.
25. Cf. G. HERRANZ, “Sin miedo a la vida…”, cit., p. 159.
26. Cf. idem, p. 161.
27. Cf. idem, p. 159.
28. Caminho, 332.
29. Sulco, 529.
30. Sulco, 499.
31. Caminho, 336.
32. Idem, 359.
33. Cf. G. HERRANZ, "Sin miedo a la vida…”, cit., p. 160.
Actas do Congreso "A grandeza da vida corriente", Vol. IX A solidariedade dos filhos de Deus, EDUSC, 2003
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