Documentação
Artigos
A hora dos pobres
Pablo Cabellos

A primeira das bem-aventuranças diz que os pobres são felizes porque deles é o Reino dos Céus. São Mateus fala de pobres em espírito, e São Lucas, de pobres apenas. Não são duas expressões contraditórias nem a primeira é uma versão mais branda da segunda: fica claro nos dois evangelistas que são necessários os dois pontos. Bento XVI escreveu: «A pobreza de que se trata não se reduz jamais a um fenómeno simplesmente material. A pobreza puramente material não salva, embora os desventurados deste mundo possam certamente contar, de forma muito particular, com a bondade divina. Mas o coração das pessoas que nada possuem pode estar endurecido, envenenado, corrompido: cheio interiormente de cobiça, esquecido de Deus e ávido apenas bens materiais» (Jesus de Nazaré).
Por outro lado, a pobreza de que o Evangelho fala – afirma também o Papa – não é uma atitude puramente espiritual. Nem a todos nos é pedido o mesmo no não ter ou no ter menos, mas todos necessitamos das renúncias suficientes para que o coração e a mente não fiquem pesados, ou mesmo embotados, pelas riquezas. O possuir só pode ser um serviço que contraponha a cultura da liberdade interior à do desejo de acumular bens. Se se é cristão, para atingir o necessário desprendimento que permita possuir o Reino dos Céus e amar o próximo. Se se não é, porque a avareza jamais gera uma sociedade melhor.
«Os bens da terra – afirmava o fundador do Opus Dei – não são maus; pervertem-se quando o homem os erige em ídolos e, perante esses ídolos, se prostra; enobrecem-se quando os convertemos em instrumentos para o bem, numa tarefa cristã de justiça e de caridade». Não podemos ir atrás de dos bens materiais – continuava a dizer – como quem procura um tesouro. Onde está o teu tesouro aí está o teu coração, diz a Escritura. Se amontoarmos bens, se eles não servirem para exercer a justiça e a caridade, se não vivermos desprendidos da matéria, o nosso coração e a nossa mente reduzem-se, diria mesmo que se tornam vis, já que foram chamados à magnanimidade, a metas mais altas e amplas nas quais devem ter posto o seu tesouro.
Encontramo-nos em momentos delicados na economia que, segundo os entendidos, mostra tendência para piorar. É necessário o concurso e o empenho de todos para resolver a conjuntura. Mas é certamente uma boa oportunidade para apertar o cinto, e não apenas os que precisamente menos têm. É boa ocasião de travar o consumismo desenfreado que busca unicamente o bem-estar material no supérfluo; é boa ocasião para viver a sobriedade na bebida, na comida e na roupa; é boa ocasião de viver a generosidade com as pessoas e instituições mais carenciadas ou que trabalham para o bem dos outros; é boa ocasião de moderar os gastos; é boa ocasião de promover uma publicidade que não incite a desejar o que é mais caro; é boa ocasião de reflectir sobre o modo de educar os filhos no esforço e no conhecimento prático do que as coisas custam, é boa ocasião de prescindir de caprichos…
A indigência, por si mesma, não é boa. Mas na medida em que é voluntária – ou se vive com garbo a que é forçosa – e conduz a metas mais altas, pode converter-se em virtude: temperança, desprendimento, pobreza. Talvez nos sirva esta máxima de Caminho: «Não esqueças: tem mais aquele que precisa de menos. - Não cries necessidades».
Pablo Cabellos, Las Provincias, 24-6-2008
Português










Oração
RSS
FACEBOOK
YOUTUBE