Documentação
Artigos
A Obra que Escrivá não queria. A história de um padre que chegou a santo
Vittorio Messori

Este é um aspecto decisivo, e no entanto ignorado quase sempre, da auto consciência de uma das instituições católicas mais amadas (como o confirmou a impressionante maré humana de 2002) e, ao mesmo tempo, mais contestada, até mesmo desprezada, inclusivamente dentro da própria Igreja. Amigos e inimigos não conhecem muitas vezes a realidade sobre a qual divergem. Assim pois, passado um lustro sobre a canonização, convém recordar que o Padre Josemaria, não só não queria fundar nada (e menos ainda o Opus Dei) mas sim que foi pressionado e se dispôs a fazê-lo, como confessou, de má vontade.

Mons. Escrivá sempre afirmou, peremptório, que a instituição não era sua, que não nascia de análise, de reflexões ou de desejo de responder a necessidades espirituais ou materiais, como sucede com outras famílias religiosas. Não se trata, pois, de uma fundação mas sim de uma revelação. O próprio nome Obra de Deus, indica que tudo estava desde sempre nos projectos divinos e que o jovem – além de pobre e só – sacerdote, vindo de Saragoça, foi escolhido unicamente como instrumento. Instrumento, ainda por cima, durante bastante tempo recalcitrante, ao ponto de ter tentado subtrair-se à obrigação que não só não tinha procurado e que o assustava até. Mas, se tinha de carregar com essa cruz, via-a um tanto limitada: “Esta Obra será só masculina”, escreve a um dos poucos amigos a quem tinha aberto a alma. E, contudo, a 14 de Fevereiro de 1930, enquanto celebrava a Missa, uma nova luz: “voltou a ver” aquilo a que, querendo ou não querendo, devia obedecer; e, com sobressalto, deu-se conta que era composta não só por homens mas também por mulheres. Hoje, de facto, pertencem à Obra homens e mulheres em paridade numérica. Um jardineiro, pois, a quem o dono do horto confia uma semente para fazer dela, com uma vida de trabalho, uma planta cuja espécie e características haviam sido estabelecidas desde toda a eternidade. E isto tem consequências importantes: acima de tudo, a convicção de que o Opus Dei, nascido não de um plano para dar resposta a circunstâncias específicas, mas de um projecto sobre-humano, durará pelos séculos fora, até ao fim da história e à última vinda de Cristo. E obviamente a persuasão de que o processo de crescimento será lento e gradual, mas - como sucede com uma árvore de grande porte – contínuo e seguro. Daqui nasce a “força tranquila”, sem pressas, mas de certo modo, implacável, que caracteriza uma Obra que apanhou de surpresa mesmo aquele que, há cinco anos, a Igreja incluiu no número dos
seus santos.
Vittorio Messori
Publicado no Corriere della Sera, 6 de Outubro de 2007
Português







Oração
RSS
FACEBOOK
YOUTUBE