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Como se explica a Ressurreição de Cristo?
Francisco Varo, Decano da Faculdade de Teologia da Universidade de Navarra

Quando, agora, nos aproximamos destes factos a fim de indagar o mais objectivamente possível a verdade daquilo que sucedeu, pode surgir uma pergunta: de onde procede a afirmação de que Deus ressuscitou? Será uma manipulação da realidade que teve um eco extraordinário na história humana, ou é um facto real que continua a parecer tão surpreendente e inesperado agora como o era para os seus aturdidos discípulos?
Para estas questões só é possível procurar uma solução razoável investigando quais poderiam ser as convicções daqueles homens sobre a vida depois da morte para ponderar se a ideia de uma ressurreição como a que se narrava é uma ocorrência lógica nos seus esquemas mentais.
Para começar, no mundo grego há referências a uma vida depois da morte, mas com características singulares. O Hades, motivo recorrente já desde os poemas homéricos, é o domicílio da morte, um mundo de sombras que é como que uma lembrança vaga da morada dos viventes. Mas Homero nunca imaginou que na realidade fosse possível um regresso do Hades. Platão, de uma perspectiva diversa, tinha especulado sobre a reencarnação, mas não pensou, como algo real, numa revitalização do próprio corpo depois de morto. Quer dizer, embora se falasse por vezes da vida depois da morte, nunca vinha à mente a ideia de ressurreição, isto é, de um regresso à vida corporal no mundo presente por parte de qualquer indivíduo.
No judaísmo a situação é em parte diferente e em parte comum. O sheol de que fala o Antigo Testamento e outros textos hebraicos antigos não é muito diferente do Hades homérico. Aí as pessoas estão como que adormecidas. Mas, diferentemente da concepção grega, há portas abertas à esperança. O Senhor é o único Deus, tanto dos vivos como dos mortos, com poder tanto no mundo do alto como no sheol. É possível um triunfo sobre a morte. Na tradição judia, também se manifestam certas crenças numa ressurreição, pelo menos por parte de alguns. Esperam também a vinda do Messias, mas os dois acontecimentos não aparecem ligados. Para qualquer judeu contemporâneo de Jesus trata-se, pelo menos em princípio, de duas questões teológicas que se desenrolam em âmbitos muito diversos. Confia-se que o Messias derrotará os inimigos do Senhor, restabelecerá o culto do templo em todo o seu esplendor e pureza, estabelecerá o domínio do Senhor sobre o mundo, mas nunca se pensa que ressuscitará depois da sua morte: é coisa que não passava normalmente pela imaginação de um judeu piedoso e instruído.
Roubar o seu corpo e inventar o boato de tinha ressuscitado com esse corpo, como argumento para mostrar que era o Messias, torna-se impensável. No dia de Pentecostes, segundo referem os Actos dos Apóstolos, Pedro afirma que «Deus o ressuscitou quebrando as ataduras da morte», e em consequência conclui: «Saiba toda a casa de Israel, com absoluta certeza, que Deus estabeleceu como Senhor e Messias a esse Jesus por vós crucificado» (Act 2,36).
A explicação de tais afirmações é a de que os Apóstolos tinham contemplado algo que jamais teriam imaginado e que apesar da sua perplexidade e das zombarias que com razão sabiam que iam suscitar, viam-se no dever de testemunhar.
Bibliografia: N. Tom Wright, “Jesus Resurrection and Christian Origins”: Gregorianum 83, 4 (2002) 615-635; Francisco Varo, Rabi Jesús de Nazaret (Madrid, B.A.C., 2005) 202-204.
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