InícioDocumentaçãoArtigosConsciência cristã e cultura política
Documentação
Artigos

Consciência cristã e cultura política

Ángel Rodríguez Luño

Etiquetas: Compreensão, Liberdade, Política, Consciência
Publica-se, agora, a comunicação “Consciência cristã e cultura política nos ensinamentos de S. Josemaria Escrivá de Balaguer” apresentada por Mons. Ángel Rodríguez Luño, Decano da Faculdade de Teologia da Universidade Pontifícia da Santa Cruz (Roma), nas 46ª Jornadas de Cuestiones Pastorales, realizadas em 25 e 26 de Janeiro em Catelldaura.

1.A formação da consciência cristã em matéria social e política
Convém esclarecer o significado da expressão “cultura política” nas presentes reflexões. Nos escritos de S. Josemaria Escrivá não se encontram aquilo a que é comum chamar-se “ideias ou opiniões políticas” isto é, considerações com o objectivo de propor ou sugerir uma solução concreta para um determinado problema político a par de outras soluções possíveis e legítimas para um cidadão católico. Relativamente a este aspecto afirmou mais de uma vez ” Eu nunca falo de política”[1], e sempre se negou a intervir na troca de opiniões que costumam determinar a filiação dos cidadãos num determinado partido político, sindicato, movimento cultural, etc., com a finalidade de contribuir nobremente para a configuração política do país. Nunca permitiu que as suas palavras ou actividades fossem interpretadas em sentido político, nem nunca quis influir noutros, sobre esse assunto. Tão pouco perguntava a quem quer que fosse sobre as suas preferências políticas. Mais adiante esclarecerei as razões fundamentais desta linha de conduta.

Por outro lado, os escritos de S. Josemaria contêm abundantes ensinamentos acerca da acção social e política dos cidadãos destinados a expor os pontos principais da ética social e política bem como da doutrina social da Igreja na medida em que tais ensinamentos são parte “dos meios espirituais necessários para viver como bons cristãos no meio do mundo”[2], trata-se de, escreveu certa vez, ensinar a “comportar-se como bons cristãos: convivendo com todos, respeitando a legítima liberdade de todos e transformar este mundo num mundo mais justo”[3].

Convém precisar que a actividade de S. Josemaria não teve como finalidade directa a prossecução de objectivos concretos de justiça social e política. Os seus ensinamentos são, isso sim, uma chamada urgente “à plenitude da vida cristã que, por se realizar no meio do mundo, implica permanentemente a existência de transformações sociais, da instauração da justiça, da fraternidade e da paz”[4]. Fica sempre bem claro que a chamada à plenitude da vida cristã transcende as realizações no plano social e político que não são mais que “efeitos decorrentes, de forma redundante e como que acrescentos, à realidade fundamental: a radicalidade da identificação com Cristo”[5].

O modo de compaginar a legítima liberdade política dos cidadãos com a formação ético-social que é o denominador comum da cultura política dos católicos parece-nos um aspecto muito característico de S. Josemaria para cuja compreensão adequada se requer um esclarecimento breve das relações entre a fé cristã e a política.

2. Fé e Política
As relações entre a fé cristã e a política devem ser vistas num quadro teológico fundamental [6]: Isto é, para S. Josemaria, o chamamento universal à santidade, dinâmica profunda da moral da vida cristã, implica uma intensa concentração cristológica.
Cornelio Fabro, autor de um dos melhores estudos teológicos sobre os escritos de S. Josemaria, encontra neles a presença constante e unificadora de “uma compreensão singularmente rica e coerente do mistério de Cristo, perfeito Deus e perfeito homem”. Que permite encontrar na “Encarnação do Verbo o fundamento perenemente actual e operativo da transformação cristã de todas as realidades criadas através do trabalho humano”[7]. A coexistência harmónica da plenitude divina e humana em Cristo converte-se no paradigma da harmonia entre o sobrenatural e o humano na existência e nas actividades do cristão.

Glosando uma passagem da Epístola aos Colossenses (1, 10-20), S. Josemaria afirma: “Falando com rigor, não se pode afirmar que haja realidades – boas, nobres e mesmo indiferentes – que sejam exclusivamente profanas pois o Verbo de Deus fixou a sua morada entre os filhos dos homens, teve fome e sede, trabalhou com as suas mãos, conheceu a amizade e a obediência, experimentou a dor e a morte”[8]. Não só não existe oposição entre a vida de relação com Deus e o empenho em colaborar com os demais na construção do bem comum, como esse empenho se converte em caminho de união com Deus, seja porque se trata de um dever cívico de todos os cidadãos que, no caso dos cristãos, é assumido também na caridade, seja porque os cristãos o exercem de acordo com a sua consciência enformada pelos valores evangélicos e deste modo produzem resultados concretos no âmbito social[9].

Se S. Josemaria afasta qualquer visão do cristianismo que não afirme a “sua relação com as situações da vida corrente, com a urgência de se ater às necessidades dos outros e esforçar-se por remediar as injustiças”[10], afasta com igual firmeza qualquer posição que esqueça a transcendência da fé cristã e da missão da igreja relativamente às diferentes sínteses político-culturais concretas, presentes no mundo ao longo da história. Os fiéis leigos são chamados a “santificar a partir de dentro as estruturas temporais, impregnando-as com o fermento da Redenção”[11] mas, a sua missão na terra, afirma S. Josemaria, não pode ser encarada como “o brotar de uma corrente político-religiosa, seria uma loucura, ainda que tivesse o bom propósito de infundir o espírito cristão em todas as actividades humanas[12]. A identificação completa da fé cristã com uma síntese cultural concreta ou com um projecto político, por muito bom que seja, é algo que em si mesmo se afasta da verdade ensinada por Cristo e, mais cedo ou mais tarde, causará um grande mal à Igreja e às almas.

Outro aspecto da questão que convém considerar é o seguinte: S. Josemaria tinha uma clara consciência de que as actividades sociais e politicas não são simples enumerações de princípios perenes mas, realizações concretas de bens humanos e sociais num contexto histórico, geográfico e cultural determinado, marcadas por uma contingência insuperável, pelo menos parcialmente, que é, aliás característica de tudo o que é concreto. Por isso afirmava “ninguém pode pretender, nas questões temporais, impor dogmas que não existem. Face a um problema concreto, seja ele qual for, a solução é estudá-lo bem e depois actuar com consciência, liberdade pessoal e responsabilidade também, pessoal”[13]. Mas, com isto não pretendia dizer que todos os assuntos sociais são contingentes, pois proclamava aos quatro ventos, sem respeitos humanos, a validade das exigências éticas universais. O seu pensamento fica claro nestas palavras: “Não esqueçais que nos assuntos humanos, os outros também podem ter razão: vêem o mesmo problema que tu mas de diferente perspectiva, com outra luz, outra sombra, outros contornos. Só na fé e na moral existe um critério indiscutível: o da nossa Mãe a Igreja”[14].

Por esta razão, S. Josemaria afirmou e defendeu o direito e o dever por parte da Hierarquia da Igreja de pronunciar juízos morais sobre assuntos temporais, quando assim o exigissem a fé ou a moral cristã[15]. Mais, ensinou constantemente que, nestes casos, os fiéis têm a obrigação moral de aceitar esses juízos doutrinais[16], e incorporou nos seus ensinamentos orais e escritos os conteúdos fundamentais do magistério pontifício e episcopal em matéria social. Esta função do magistério eclesiástico refere-se aos princípios dogmáticos e morais, e aos factos e projectos que entrem claramente em contradição com eles, mas não se estende – excepto em circunstancias de gravidade excepcionais - à escolha de uma opção política determinada, se existirem várias que são compatíveis com a consciência cristã.
Assim, fica claro que tudo o que se afirmar de seguida não tem como finalidade sugerir opções políticas concretas, mas acentuar alguns princípios de ética social e política que informam a consciência cristã.

3. Participação e Solidariedade
A convergência cristológica acima referida determina a visão de S. Josemaria sobre o que significa para um cristão estar no mundo e viver no mundo ou, por outras palavras, a sua concepção de secularidade. Esta traduz-se no imperativo da responsabilidade e da participação: viver no mundo significa sentir-se responsável por ele, assumindo a tarefa de participar nas actividades humanas – profissionais, culturais, sociais e políticas – para as configurar de acordo com a justiça, a liberdade e os outros valores evangélicos. E assim escreve: “Como cristão, tens o dever de actuar, de não te absteres de colaborar para servir com lealdade e com liberdade pessoal o bem comum[17]. O trabalho a favor do bem comum requer empenho e generosidade porque a passividade, a preguiça, o “deixar andar” são tentações constantes a que um cristão não deve ceder. “Os filhos de Deus, cidadãos da mesma categoria que os outros, devem participar “sem medo” em todas as actividades e organizações humanas, honestas para que Cristo aí esteja presente. Nosso Senhor pedir-nos-á conta, com rigor, se por apatia ou comodidade, cada um de nós, livremente, não procurar intervir nas obras e nas decisões humanas de que dependem o presente e o futuro da sociedade”[18].

Ao falar de participação, S. Josemaria não se referia apenas aos cidadãos, sempre poucos, que se dedicam profissionalmente à política, nem também com isso queria sugerir que convinha dedicar-se a essa actividade, o que não seria bom para quem não possuísse as necessárias capacidades; pensava simplesmente no cidadão que cumpre os seus deveres cívicos e exerce os seus direitos e, tanto num caso como noutro, é coerente com a sua concepção do mundo, do homem e do bem comum político, associando-se livremente com os que, cristãos ou não, compartilham essas ideias e estão dispostos a realizá-las. Neste sentido lamentava ser frequente ”mesmo entre católicos que parecem ser responsáveis e piedosos o erro de pensar que só estão obrigados a cumprir os seus deveres familiares e religiosos e não querem ouvir falar de deveres cívicos”[19].

Na realidade não se trata de um dever específico dos cristãos mas de um dever geral de todos os cidadãos que os cristãos devem santificar. Os sistemas políticos actuais pressupõem a participação dos cidadãos e sem ela não podem funcionar adequadamente. A proliferação exagerada do aparelho estatal ou o predomínio de soluções que não respondem ao sentir comum, mas apenas a uma minoria de activistas, deve-se em boa parte “à inibição dos cidadãos, à sua passividade perante a defesa dos direitos sagrados da pessoa humana. Esta inactividade que tem origem na preguiça mental e na inércia da vontade, verifica-se também nos cidadãos católicos que não estão conscientes de que existem outros pecados mais graves que os que se cometem contra o sexto mandamentos do Decálogo”[20].

Uma parte muito significativa da participação na vida social e política é o trabalho de promoção social, a luta contra a injustiça, a corrupção, a violência e a falta de equidade na distribuição dos bens económicos e culturais:”Compreende-se muito bem a impaciência, a angústia, a inquietação dos que com uma alma naturalmente cristã, não se resignam ante a injustiça pessoal e social que pode criar o coração humano. Tantos séculos de convivência entre os homens e contudo, tanto ódio, tanta destruição, tanto fanatismo nos olhos dos que não querem ver e nos corações que não querem amar. Os bens da terra, repartidos entre uns poucos, os bens da cultura encerrados em círculos restritos. E lá fora, fome de pão e de sabedoria, vidas humanas que são santas porque vêm de Deus, tratadas como coisas, como números de estatísticas”[21]. S. Josemaria incentivou muitas pessoas a dedicarem a sua actividade profissional a obras de promoção social de carácter educativo, sanitário, assistencial, etc.[22], dando sugestões úteis para que essas tarefas se desenvolvessem de modo eficaz, valorizando os recursos locais e a dignidade de quantos beneficiam delas.

4. Liberdade, responsabilidade e pluralismo
O princípio da liberdade, bem como o da participação, que acabámos de referir, ocupa um lugar central nos ensinamentos de São Josemaria. Vê a liberdade como um bem humano e cristão da máxima importância. «Repito e repetirei sem cessar que o Senhor nos deu gratuitamente uma grande dádiva sobrenatural, a graça divina, e outra maravilhosa dádiva humana, a liberdade pessoal, que exige de nós - para que não se corrompa, convertendo-se em libertinagem - integridade, empenho sério por desenvolver a nossa conduta dentro da lei divina, porque onde está o Espírito de Deus, aí há liberdade” (2 Cor III, 17). [...] Alguns daqueles que me escutam já me conhecem há muitos anos. Podeis testemunhar que durante toda a minha vida preguei a liberdade pessoal, com pessoal responsabilidade. Procurei-a e procuro-a, por toda a terra, como Diógenes procurava um homem. E amo-a cada vez mais, amo-a sobre todas as coisas terrenas: é um tesouro que nunca saberemos apreciar suficientemente». [23].

Amar a liberdade implica necessariamente amar «o pluralismo que a liberdade leva consigo» [24]. Pluralismo não é sinónimo de conflito ou de tensão: «O facto de que alguém pense de maneira diferente da minha - especialmente quando se trata de coisas que são objecto da liberdade de opinião - não justifica de modo nenhum uma atitude de inimizade pessoal, nem sequer de frieza ou de indiferença. A minha fé cristã diz-me que é necessário viver a caridade com todos, inclusive com aqueles que não têm a graça de crer em Jesus Cristo.» [25]. Um cristão não considera o adversário político como um inimigo, não o odeia nem o maltrata, deixa-o falar, escuta-o, e não recorre de modo nenhum à difamação nem à calúnia, nem sequer utiliza questões privadas, irrelevantes para o bem comum, como arma política.
São Josemaria vê sempre a liberdade a par da responsabilidade. Num texto que se tornou célebre pela sua clareza, afirmava que um cidadão cristão bem intencionado «não se lembra nunca de pensar ou de dizer que desce do templo ao mundo para representar a Igreja, e que as suas soluções são as soluções católicas daqueles problemas [...]. Isso seria clericalismo, catolicismo oficial, ou como quiserdes chamar-lhe. De qualquer modo, seria violentar a natureza das coisas. Tendes de difundir por toda a parte uma verdadeira mentalidade laical, que há-de levar os cristãos a três consequências: a serem suficientemente honrados para arcarem com a sua responsabilidade pessoal; a serem suficientemente cristãos para respeitarem os seus irmãos na fé que proponham - em matérias discutíveis - soluções diversas das suas; e a serem suficientemente católicos para não se servirem da Igreja, nossa Mãe, misturando-a com partidarismos humanos» [26].
Esta última consideração, cuja substância foi recolhida pelo Código de Direito Canónico de 1983 [27], merece um amplo comentário, que não podemos fazer aqui. Talvez alguém pense que esse modo de proceder debilitaria a presença dos cristãos - e dos valores que são importantes para os cristãos - na vida social e política. Mas na realidade acontece o contrário. Querer impor uma opinião única em assuntos opináveis, levaria à desunião dos cristãos naquilo que é verdadeiramente irrenunciável. «Assim, acontece frequentemente – escrevia em certa ocasião - que se vêem católicos que sentem com muito mais força afinidade ideológica com outros homens – embora inimigos da Igreja – que o próprio vinculo da fé com os seus irmãos católicos; e que, ao mesmo tempo que dissimulam as diferenças no essencial que os separam de pessoas de outras religiões, ou sem nenhuma religião, não sabem aproveitar o ’denominador comum’ que têm com os outros católicos, para conviver com eles e não exacerbar as possíveis diferenças de opinião naquilo que é contingente» [28].

5. Liberdade e formação cristã
A ênfase no princípio da liberdade e da responsabilidade pessoais pressupõe no cidadão cristão a preocupação por adquirir uma formação sólida, de modo que a sua actividade constitua efectivamente uma contribuição positiva à recta ordem da vida social. São Josemaria sentia vivamente a necessidade de proporcionar a todos essa formação. «Dir-vos-ei, a propósito disto, qual é o meu grande desejo: gostaria que, no catecismo da doutrina cristã para as crianças, se ensinasse claramente quais são estes pontos firmes, em que não se pode ceder, ao actuar de um ou de outro modo na vida pública; e que, ao mesmo tempo, se afirmasse o dever de agir, de não se abster, de prestar a própria colaboração para servir com lealdade e com liberdade pessoal, o bem comum. Este é um grande desejo meu, porque vejo que assim os católicos aprenderiam estas verdades desde crianças e saberiam praticá-las quando fossem adultos» [29]. Hoje esse desejo converteu-se em realidade, pois o Catecismo da Igreja Católica e diversos catecismos nacionais concedem a devida atenção aos temas sociais e políticos [30]. O problema é de importância capital, porque da formação adequada dos fiéis depende que a sua presença na vida pública tenha como resultado a ordenação cristã do mundo, e não a «secularização» dos cristãos.
Quando aqui fala de formação, não se entende propriamente a comunicação de soluções concretas prefabricadas e irreformáveis, cerradas ao diálogo construtivo. Formar é antes promover uma sensibilidade face às exigências do bem comum, bem como estimular um pensamento que, à luz da fé, permita progredir na compreensão da realidade e das mudanças sociais. São Josemaria Escrivá via nesta formação uma fonte e um motivo de solidariedade, quer dizer, de participação solidária na empresa colectiva de busca da verdade. «Neste ajudar-se uns aos outros ocupa um lugar importante a contribuição para se conhecer, para descobrir a verdade. A nossa inteligência é limitada, só podemos talvez - com esforço e dedicação - chegar a distinguir uma parcela da realidade, mas são muitas as coisas que se nos escapam. Uma outra manifestação da solidariedade entre os homens é pôr os conhecimentos em comum, participar aos outros as verdades que conseguimos encontrar, até constituir assim esse património comum que se chama civilização, cultura» [31].

6. Verdade e caridade
Além do pluralismo de opções políticas, pode existir na vida social uma diversidade de credos religiosos e de ideias de ordem moral: no mesmo Estado, na mesma cidade, no seio da mesma família, frequentemente convivem e colaboram pessoas que têm credos religiosos ou morais diferentes das que em consciência consideramos verdadeiras. Esta convivência pode gerar, e efectivamente gera, tensões e problemas de vária natureza. A doutrina da Igreja Católica sobre o direito à liberdade religiosa [32], sobre a cooperação com o mal [33] ou sobre o comportamento perante as leis injustas [34], por exemplo, constitui um critério de acção para algumas das situações que se podem apresentar.
Os problemas historicamente ligados às diferenças religiosas e morais, juntamente com factores de tipo ideológico, criaram a mentalidade, muito divulgada em alguns ambientes, de que a convicção de que existe uma verdade sobre o bem da pessoa e das comunidades humanas acaba por se traduzir em relações injustas de domínio ou de violência entre os homens. Dessa ideia, que não nos detemos agora a considerar, podem surgir diversas atitudes: uns consideram que uma certa dose de agnosticismo ou de relativismo é um bem, ou pelo menos um mal menor, necessário para a convivência democrática [35], pelo que pensam que das verdades últimas é melhor não falar no âmbito público, chegando por vezes a exigir, como condição para qualquer forma de diálogo, a disponibilidade do interlocutor para renunciar ou, pelo menos, para pôr entre parênteses as convicções constitutivas da própria identidade; se alguém não está disposto a fazê-lo, acusam-no de ser um mau cidadão, um inimigo da convivência. Perante esta perspectiva, outros fecham-se ao diálogo, porque não querem ou não sabem dar certas explicações, por medo ou porque se sentem submetidos a uma chantagem moral, ou entendem que o diálogo é um bem pelo qual vale a pena ceder, quer dizer, renunciar, pelo menos externa e tacticamente, à própria identidade, embora esta atitude implique uma certa duplicidade, pouco leal tanto face às próprias convicções como face aos próprios interlocutores.
Este é um problema para o qual São Josemaria demonstrou uma sensibilidade muito delicada. Dois ensinamentos neo-testamentários estão na base das suas reflexões: a advertência do Senhor de que não existe um verdadeiro dilema entre o que se deve a Deus e o que se deve a César [36], e os ensinamentos de São Paulo de que a verdade tem de ser exposta com caridade, sem ferir [37]. Seguindo este ensinamento paulino, não tinha dificuldade em harmonizar o direito a manter a sua própria identidade intelectual e espiritual e o dever de falar simplesmente ou de colaborar com os que têm ideias diferentes. «Costumo sempre insistir, para que esta ideia vos fique bem clara, que a doutrina da Igreja não é compatível com os erros contra a fé. Mas, não podemos ser amigos leais dos que cometem esses erros? Se temos bem firmes a conduta e a doutrina, não podemos emparceirar com eles em tantos campos?» [38].
Pensava sem dúvida que a colaboração com pessoas de diversos credos podia ser em muitas ocasiões uma oportunidade para difundir a verdade e dissipar preconceitos e mal-entendidos. Em qualquer caso, impunha-se manter uma linha de conduta evangélica; daí «a preocupação cristã por fazer desaparecer qualquer forma de intolerância, de coação e de violência no trato dos homens entre si. Também na actividade apostólica - melhor: principalmente na actividade apostólica -, queremos que não haja nem sequer o menor assomo de coacção. Deus quer que o sirvamos com liberdade e, portanto, um apostolado que não respeitasse a liberdade das consciências não seria correcto» [39].
Distinguiu com extrema clareza a relação íntima da consciência pessoal com a verdade da relação entre as pessoas. À primeira preside o poder normativo da verdade, porque nunca é honrado não ser coerente com aquilo que em consciência se julga verdadeiro; à segunda, a justiça e as exigências inalienáveis da dignidade da pessoa. E por isso falava, pensando na primeira dessas duas relações, da santa intransigência, termo com que denominava a coerência, a sinceridade, à qual se opõe a vilania, quer dizer, a atitude de quem, estando convencido de que dois mais dois são quatro, diz que são três e meio por debilidade ou por comodidade. Mas acrescentava sempre que a intransigência referida a uma afirmação doutrinal não é santa se não vai unida à transigência amável com a pessoa que mantém uma posição diferente da nossa e que consideramos errónea [40].
A sua atitude neste ponto era firme e clara, e não admitia excepções. Considerava a intolerância uma injustiça frente à qual se deve reagir. «Por isso, quando alguém tentar maltratar os equivocados, estai certos de que sentirei o impulso interior de me pôr a seu lado, para partilhar por amor de Deus da sua sorte» [41]. Soube viver estes ensinamentos de modo prático, e isto é um dado histórico, pois em 1950 obteve da Santa Sé a autorização para que o Opus Dei admitisse como cooperadores homens e mulheres não católicos e não cristãos [42], e assim se fez desde então.

Tudo isto demonstra, à saciedade, que amava o diálogo aberto, leal e sincero. Acreditava nele como meio de coesão social e como ocasião de entendimento e de apostolado. Advertia, sem dúvida, que o bem comum da sociedade, e principalmente de uma sociedade complexa como a actual, exige relacionar adequadamente um conjunto de circunstâncias e pontos de vista diferentes, que não devem fechar-se em si próprios nem actuar de modo puramente auto-referencial. Mas via acima de tudo que a condescendência demonstrada por Deus ao querer que o seu Verbo eterno se fizesse também palavra humana, fazia do diálogo humano um critério de conduta vinculativo para a consciência cristã.
Os escritos de São Josemaria tratam também de outros aspectos da vida social (como sejam, por exemplo, a opinião pública, a liberdade de ensino, etc.), sobre os quais não podemos agora deter-nos. Pensamos contudo que os temas tratados são suficientemente representativos do que era para São Josemaria a cultura política própria da consciência cristã.

____________________________________________
[1] São Josemaria Escrivá, Temas actuais do Cristianismo, (trad. port.), nº 48; cfr. também Id., Cristo que passa (trad. port.), nº 183.
[2] Temas actuais do Cristianismo, cit., n. 27.
[3] Ibid., n. 27.
[4] A. De Fuenmayor - V. Gómez-Iglesias - J.L. Illanes, El itinerario jurídico del Opus Dei. Historia y defensa de un carisma, Eunsa, Pamplona 1989, p. 59
[5] Ibidem.
[6] Nestas páginas retomamos com diversas modificações o que já tratamos em A. Rodríguez Luño, Cultura política y conciencia cristiana. Ensayos de ética política, Rialp, Madrid 2007, pp. 51-86. Sobre estes aspectos da mensagem de São Josemaria pode ver-se J.M. Pero-Sanz - J.M. Aubert - T. Gutiérrez Calzada, Acción social del cristiano. El beato Josemaría Escrivá y la Doctrina social de la Iglesia, Palabra, Madrid 1996 (com ampla bibliografía).
[7] C. Fabro, La tempera di un padre della Chiesa, em C. Fabro - S. Garofalo - M. A. Raschini, Santi nel mondo. Studi sugli scritti del beato Josemaría Escrivá, Ares, Milano 1992, p. 115.
[8] Cristo que passa, cit., nº 112.
[9] Cfr. Ibid., nº 125.
[10] Ibid., nº 98.
[11] Ibid., nº 183.
[12] Ibid., nº 183.
[13] Temas actuais do Cristianismo, cit., n.77.
[14] São Josemaria Escrivá,, Sulco,(trad. port.), n. 275.
[15] Cfr. Temas actuais do Cristianismo, cit., n. 11.
[16] Cfr. Ibid.,n. 29.
[17] São Josemaria Escrivá, Forja,(trad. port.), n. 714.
[18] Ibid., 715; cfr. também nn. 717-718.
[19] Carta 9-I-1932, nº 46, citado en Cultura política y conciencia cristiana, cit., p. 76.
[20] Carta 9-I-1959, nº 40, citado en Cultura política y conciencia cristiana, cit., p. 77.
[21] Es Cristo que pasa, cit., n. 111.
[22] Cfr. por exemplo as iniciativas mencionadas em Temas actuais do Cristianismo, cit., n. 71.
[23] Es Cristo que pasa, cit., n. 184.
[24] Temas actuais do Cristianismo, cit., n. 98.
[25] Ibidem.
[26] Ibid., n. 117.
[27] Código de Direito Canónico, c. 227: «Os fiéis leigos têm o direito de que, nas coisas da cidade terrena, lhes seja reconhecida a liberdade que compete a todos os cidadãos; ao utilizarem esta liberdade, procurem que a sua actuação seja imbuída do espírito evangélico, e atendam à doutrina proposta pelo magistério da Igreja, tendo porém o cuidado de, nas matérias opináveis, não apresentarem a sua opinião como doutrina da Igreja”.
[28] Carta 30-IV-1946, nº 21, citado em Cultura política y conciencia cristiana, cit., p. 71.
[29] Carta 9-I-1932, nº 45, citado em Cultura política y conciencia cristiana, cit., pp. 71-72.
[30] Sente-se em João Paulo II uma preocupação semelhante, Exort. Apost. Christifideles laici, 30-XII-1988, nº 59-60.
[31] Carta 24-X-1965, nº 17, citado em Cultura política y conciencia cristiana, cit., pp. 72-73
[32] Cfr. Concilio Vaticano II, Declaração Dignitatis humanae, 7-XII-1965.
[33] Cfr. por exemplo João Paulo II, Enc. Evangelium vitae, 25-III-1995, nº 74.
[34] Cfr. Ibid., nº 71-73.
[35] Cfr. a apreciação crítica dessa tese contida na Enc. Centesimus annus, nº 46.
[36] Cfr. Mt 22, 15-22.
[37] Cfr. Ef 4, 15; Forja, n. 559.
[38] Carta 16-VII-1933, nº 14, citado em Cultura política y conciencia cristiana, cit., p. 83.
[39] Carta 9-I-1932, nº 66, citado em Cultura política y conciencia cristiana, cit., pp. 83-84.
[40] Cfr. Carta 16-VII-1933, nnº 8 y 12; citado em Cultura política y conciencia cristiana, cit., pp. 84-85.
[41] Carta 31-V-1954, nº 19, citado em Cultura política y conciencia cristiana, cit., p. 70.
[42] Cfr. Temas actuais do Cristianismo, cit., n. 29; cfr. também o n. 22.