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Cornelio Fabro e São Josemaria Escrivá
Fernando Ocáriz

Cornelio Fabro considerava São Josemaria um "mestre da liberdade"
O P. Cornelio Fabro manifestou frequentemente a pena que sentia por não ter conhecido pessoalmente São Josemaria, a quem porém conheceu e admirou profundamente através dos seus escritos. Para esse conhecimento muito contribuiu também a sua amizade com D. Álvaro del Portillo, primeiro sucessor de São Josemaria, e com outros membros da Prelatura do Opus Dei, especialmente com o filósofo Carlos Cardona.
A admiração e veneração de Cornelio Fabro por São Josemaria foram, de certo modo, intuitivas perante uma mensagem que se lhe apresentava com o encanto do Evangelho sine glossa, como ouvi o P. Fabro dizer mais de uma vez. Essa admiração iria depois in crescendo, também desde o ponto de vista intelectual, por meio de uma reflexão atenta, que não se ficava pela superfície, mas que ia sempre ao núcleo das questões. Penso que também por isso Cornelio Fabro, já nos primeiros anos da década de 70, nos animava a pôr em prática o projecto de São Josemaria que mais tarde se concretizaria na
Universidade Pontifícia da Santa Cruz .
Não posso deixar de recordar, com sincera gratidão, o desejo, muitas vezes manifestado pelo P. Fabro -e realizado com a autorização dos seus Superiores -, de doar à nossa Universidade a sua preciosa biblioteca: preciosa não só quantitativamente (uns 30.000 volumes), mas sobretudo qualitativamente. E como não recordar as reuniões e os seminários com estudantes e professores da Santa Cruz regidos por ele?
Cornelio Fabro dedicou vários escritos a comentar, com o seu habitual rigor, alguns dos elementos centrais dos ensinamentos de São Josemaria. Farei uma breve referência somente a dois desses textos, que considero de particular valor. Em primeiro lugar, o artigo intitulado El primado existencial de la libertad, que desenvolve e amplia um texto mais breve publicado no Osservatore Romano em 1977 com o título Um mestre de liberdade cristã .
O P. Fabro - que, como se sabe, estudou e escreveu muito sobre o tema da liberdade – apreende e explica muito bem a profundidade original com que São Josemaria nos faz penetrar no conhecimento desse grande dom de Deus que é a liberdade, tanto na ordem da natureza como, mais ainda, na da graça: a liberdade dos filhos de Deus, para a qual Cristo nos libertou. «Só o cristão que é completamente dócil aos impulsos da graça - escreve Fabro – é verdadeira e completamente livre (...). Esta mensagem evangélica brilha com uma luz especial nos ensinamentos do fundador do Opus Dei. É um paradoxo, o mais profundo paradoxo da existência: mas no Cristianismo as verdades mais elevadas apresentam-se sempre de forma paradoxal. Assim, a verdadeira, isto é, a “real” liberdade do homem ferido pelo pecado e debilitado no seu espírito, está na verdadeira, isto é, na “real” obediência a Deus, através da renúncia a si próprio e ao espírito do mundo, através do sofrimento da vida presente, através da nostalgia da vida eterna».
Mas não se trata somente de uma doutrina. Como também escreve Cornelio Fabro, «em perfeita consonância com o Concilio Vaticano II, o fundador do Opus Dei propõe, como primeiro bem que se deve respeitar e estimular no empenhamento do cristão, precisamente a liberdade pessoal; de modo que o primado da liberdade não só é reconhecido na doutrina, mas vivido na prática, também quanto aos outros homens». Mas o «primado existencial da liberdade cristã, pregado com tanta energia por Mons. Escrivá - conclui Fabro -, não deixa o homem abandonado às suas próprias forças, pois é inseparável da afirmação de que a Cristo não se chega senão através da Cruz e sob a guia e a ajuda de Santa Maria, Mãe de Deus, de Cristo, e nossa Mãe».

As Edições Rialp publicaram um volume que reune dois ensaios de Cornelio Fabro: "El temple de un Padre de la Iglesia" e "El primado existencial de la libertad"
A disseminada secularização dos nossos dias é, certamente, um obstáculo à presença salvífica da Igreja no mundo. No contexto da reflexão sobre o pensamento do fundador do Opus Dei, o P. Fabro escreve que «ao desafio da secularização, a Igreja responde com Escrivá da maneira mais radical e eficaz: não entrincheirando o cristão atrás de uma barricada construída para o defender nem o levando ingenuamente a abraçar uma cultura feita para o aniquilar, mas afirmando que a Encarnação do Verbo é o fundamento perenemente actual e operante da transformação do homem em Cristo e, através do trabalho do homem, de toda a criação».
Da profundidade com que Cornelio Fabro captou os aspectos centrais da mensagem espiritual de São Josemaria fala a agudeza da sua mente especulativa. O próprio P. Fabro explicava que a sua actividade filosófica se tinha desenvolvido seguindo três direcções fundamentais. A primeira, de interpretação e aprofundamento no pensamento de São Tomás de Aquino, levou ao que Fabro chamava tomismo essencial, centrado na descoberta do ser como acto e a correspondente noção de participação. Uma segunda direcção foi o estudo da filosofia moderna e contemporânea, que o conduziu a individualizar com rigor a pertença essencial do ateísmo à filosofia da imanência. A terceira constitui uma defesa da oposição de Kierkegaard a Hegel, com a afirmação kierkegaardiana da liberdade como independência da pessoa para se comprometer na escolha do Absoluto, quer dizer, de Deus.
Estas três direcções são convergentes e não podem ser consideradas uma mera recusa do pensamento moderno em função de uma nova proposição da filosofia tomista. No itinerário intelectual de Cornelio Fabro, encontramos um grande empenho por assumir e valorizar quanto há de positivo no pensamento moderno à luz da filosofia realista e cristã. Também aqui se pode ver uma profunda sintonia com a atitude intelectual de São Josemaria, que, por exemplo, escreveu: «Para ti, que desejas adquirir uma mentalidade católica, universal, transcrevo algumas características: - amplidão de horizontes e aprofundamento enérgico do que é perenemente vivo na ortodoxia católica; - esforço recto e são (frivolidade, nunca!) por renovar as doutrinas típicas do pensamento tradicional, na filosofia e na interpretação da História; - cuidadosa atenção às orientações da ciência e do pensamento contemporâneos; - e uma atitude positiva e aberta para com a transformação actual das estruturas sociais e das formas de vida.» (Sulco, 428).
Da profundidade com que o P. Fabro captou os elementos centrais dos ensinamentos de São Josemaria fala o facto de o filósofo Fabro ser, também, teólogo, e não só devido à sua preparação para o sacerdócio e aos seus estudos e publicações posteriores, mas também e sobretudo porque sempre entendeu a sua dedicação à filosofia como algo inseparável da vida cristã e sacerdotal: como um serviço à Verdade que é Jesus Cristo. Poucos dias depois do 50º aniversário da sua ordenação sacerdotal, numa carta de 25 de Abril de 1985, o P. Fabro dizia-me: «A divina Providência e a contínua protecção da Mãe de Deus têm-me assistido sempre, e especialmente nos momentos de maior risco e sofrimento. Considero-os um sinal da divina misericórdia: cupio dissolvi et esse cum Christo. Aguardo com confiança, e diria que com serena alegria, a vinda de “Aquele que há-de vir”: 50 anos em contínuo anseio, ao serviço da verdade, com o olhar posto na minha miséria, mas também com infinita gratidão por uma meta tão alta, que leva a submergir-me no meu nada e a levantar-me até ao alto com a esperança que não defrauda».
Ver em Google Books o livro
El temple de un padre de la Iglesia, que recolhe os ensaios de Cornelio Fabro mencionados neste artigo
L'Osservatore Romano, 26-06-2011
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