InícioTestemunhosJosemaría foi um vulcão de amor de Deus
Testemunhos

Josemaría foi um vulcão de amor de Deus

Marlies Kücking, Roma

1 Fevereiro 2009

Etiquetas: Personalidade, Santidade, Seguir Cristo
Entrevista a Marlies Kücking publicada na revista Mundo Cristiano. Conheceu o Beato Josemaría em 1957 em Colónia e trabalhou vários anos junto do fundador do Opus Dei em Roma. Desde 1964, faz parte do governo central da Prelatura.


Se se lhe pedisse que concretizasse, Marlies Kücking poderia até dizer o dia a e a hora (no entanto, apenas diz que foi “numa tarde de Agosto de 1957”) em que conheceu Josemaría Escrivá. Deve ter sido para ela um daqueles momentos que nunca se esquecem.

“Desde o dia em que o conheci – assegura – adquiri a certeza de me encontrar na presença de um santo, e esta certeza não me abandonou nunca”. A sua percepção vai converter-se este ano em realidade plena. Quando chegar esse momento – o dia da canonização do fundador do Opus Dei – experimentará “uma alegria enorme e um agradecimento a Deus , à Igreja e ao Papa”.

Desde 1964, Marlies Kücking trabalha no governo central da Prelatura. É uma alemã com ar nórdico, com gosto pelo montanhismo que subiu a altos cumes, mas que também gosta de andar em terrenos planos. Estudou Filologia Germânica e Inglesa em Bona. Fala meia dúzia de línguas e viajou pelos cinco continentes.

- Que importância dá ao facto de que a Igreja proclame Josemaría Escrivá “santo de altar”?
- Sempre que a Igreja eleva aos altares um filho seu, é como se dissesse a cada um: “Sim, tu também podes!”. Neste caso, para além disso, encontramo-nos com um modelo muito próximo, não só porque se trata de um contemporâneo nosso, mas sobretudo, pela actualidade que para a mulher e para o homem trabalhador do nosso tempo tem a mensagem que Deus lhe confiou: que todos os caminhos honrados podem ser ocasião de um encontro divino, que todas as circunstâncias concretas em que a vida nos colocou (todas as realidades familiares, sociais e profissionais nobres) podem e devem levar-nos a Deus, desde o trabalho do homem que trabalha no campo e do operário ao do investigador, da mãe de família ao jornalista ou ao político, para citar apenas alguns. Não existe ambiente humano recto que se possa excluir do chamamento à santidade. Poderia exprimi-lo com umas palavras que o Beato Josemaría gostava de repetir: “Abriram-se os caminhos divinos da terra”.

- Essa importância circunscreve-se ao âmbito do Opus Dei ou abrange toda a Igreja?
- Trata-se de um facto que transcende o âmbito da Prelatura. E isto sucede porque a figura de Josemaría Escrivá é universal; é um dado sociológico pois basta contemplar as iniciativas apostólicas que promoveu ou a difusão da sua devoção em todo o mundo; mas este dado baseia-se sobretudo na universalidade da mensagem que recebeu do Senhor: recordar às mulheres e aos homens que todos os baptizados, sem discriminação alguma, são chamados por Cristo com vocação à santidade e ao apostolado, na vida corrente, no cumprimento das tarefas normais. De qualquer forma, é lógico, de que se viverá de um modo especial na Prelatura, pois para os fiéis do Opus Dei será verdadeiramente um novo estímulo para seguir fielmente o seu fundador.

O gabinete de Marlies Kücking, num terceiro andar dá para um pequeno ‘cortile’, de tons alaranjados, típicos da arquitectura romana. Ao fundo vê-se a cidade, a Roma que o beato Josemaría palmilhou tantas vezes para procurar uma escultura a bom preço ou um presépio pequeno para um doente, ou, simplesmente para dar um passeio.


Verão de 1957

- Foi uma das pessoas que trabalhou durante mais tempo com o que, em breve, será novo santo...
- Efectivamente, tive a enorme fortuna de trabalhar muitos anos com o beato Josemaría. Desde que o conheci até ao último dia em que o vi, pouco antes da sua morte, pude ser testemunha do seu amor a Deus, da sua fidelidade à Igreja e ao Santo Padre, do carinho aos seus filhos e a todas as almas, da sua laboriosidade incansável, do seu bom humor e da sua luta constante por cultivar a fundo as virtudes cristãs.

- Fale-nos de como e quando o conheceu
- Conheci-o numa tarde de Agosto de 1957, no primeiro Centro de mulheres do Opus Dei em Colónia. Chamou-me a atenção a sua solicitude paterna, melhor dito, materna, por cada uma das estávamos ali nesse momento. Eram os primeiros passos do trabalho apostólico das mulheres da Obra na Alemanha. Contudo, o beato Josemaría fazia-nos sonhar já com projectos apostólicos que se realizariam, contagiava-nos com a sua fé em Deus. “Com a graça de Deus e com bom humor, tudo é possível”, comentou connosco.

- Situemo-nos em Roma, nos anos sessenta
- Quando estive a seu lado em Roma, contemplei plasmada essa fé em Deus que o levava a não retroceder ante muitíssimas dificuldades de todo o tipo que encontrou ao longo da sua vida: carência de meios, incompreensões, calúnias... Notava-se que tinha uma consciência clara da missão que Deus lhe tinha confiado, e sabia transmitir essa fé aos outros. Desde o dia em que o conheci, adquiri a certeza de me encontrar na presença de um santo, e essa certeza nunca me abandonou. Verifiquei que em muitas outras pessoas deixou o mesma rasto. Quando se lhes apresentava a oportunidade de um encontro com o beato Josemaría, mesmo que fosse muito breve, costumavam manifestar uma profunda emoção. E não se tratava de um mero entusiasmo humano, como o que se experimenta quando se segue um líder. Ali havia algo de Deus. Porque não se pode esquecer que o fundador do Opus Dei (não sem uma razão muito profunda, o seu lema era “ocultar-se e desaparecer”) não procurava atrair as pessoas a si.. A sua paixão era aproximar-nos de Deus. Poderia dizer que era “um vulcão de amor de Deus”, que estimulava a procurar Cristo com mais afinco na oração e na mortificação, entregar-se ao apostolado, procurando facilitar que os seus amigos e colegas se encontrassem com Deus, a trabalhar com mais constância, a fazer a vida santamente amável no convívio quotidiano...


Amor à verdade e à liberdade

A mesa de trabalho de Marlies Kücking é ampla, apropriada para reuniões com várias pessoas ao mesmo tempo. À sua esquerda está um computador em rede com os outros gabinetes. Por trás, uma estante a que preside um crucifixo que Josemaría Escrivá comprou em 1946, quando chegou pela primeira vez a Roma. Algumas fotografias, antigas e actuais, de fiéis da Prelatura de todo o mundo dão um ambiente internacional à sala.

- Em que consistiu a sua colaboração com Josemaría Escrivá? Poderia descrever o seu modo de trabalho?
- Desde 1964 fiz parte do conselho de mulheres do governo central da Obra, e continuo a trabalhar neste órgão que ajuda o Prelado na direcção do Opus dei. Esses 11 anos até à sua morte, em 1975, permitiram-me experimentar ou, dizendo-o com uma expressão gráfica, “tocar com a mão”, o fogo da caridade que latia na sua alma e que o impelia a entregar-se por completo no seu trabalho de governo e formação à frente do Opus Dei. Tinha um vivo sentido da secularidade do espírito fundacional e um amor enorme à verdade, à liberdade e à responsabilidade pessoais. Por isso não é de estranhar que também ensinasse a desenvolver as tarefas de direcção de maneira que sempre fossem entendidas, e desempenhadas, como ocasião de serviço aos outros, à sua felicidade terrena e eterna; e, por isso, exortava-nos com frequência a trabalhar bem (com competência profissional), a velar amavelmente pela fidelidade à Igreja ou ao espírito do Opus Dei, e pela felicidade de todos, para incendiar no amor, e saber promover a espontaneidade apostólica das pessoas.

- Pode destacar duas características daquilo que acaba de expor?
- O seu amor ao governo colegial e a sua profunda humildade. Amava e fazia com que se cuidasse a colegialidade: tinha aversão à atitude de quem se quisesse tornar “tirano”; ouvia sempre as pessoas que tinham de intervir nos assuntos, e ele dava a sua opinião em último lugar. Não era uma prática meramente instrumental de eficácia humana (tendo em conta que quatro olhos vêem mais que dois), mas de uma garantia para o bem das almas. Sempre interpretei estes dois aspectos como uma delicada manifestação do seu amor à liberdade e da sua luta decidida por amar Nosso Senhor.: animava-nos a dar a nossa opinião, embora fosse ele o fundador e nós, além do mais, fôssemos bem mais novas.


O centro da sua vida

O objecto de maior estimação desta sala de trabalho no Parioli romano é um pequeno quadro que emoldura o crucifixo que o beato Josemaría teve nas mãos no dia 27 de Junho de 1975, no dia depois do seu falecimento e que foi substituído por outro antes de ser sepultado.

- Qual foi o centro da vida de Josemaría Escrivá?
- Toda a sua existência estava centrada em Jesus Cristo, o grande amor da sua alma. Inseparavelmente desse querer, e precisamente por isso, amava a todos com paixão, e de modo especial aos seus filhos. Sabia querer, com um querer sobrenatural e humano ao mesmo tempo. A sua presença e as suas palavras conduziam-nos a Cristo: impelia-nos a amar a Humanidade santíssima de Jesus, e ao mesmo tempo conseguia que as pessoas se enchessem de alegria (também humana) e se sentissem bem: estava-se muito bem junto dele. Tinha um coração vigilante , sempre atento a qualquer perigo que pudesse espreitar um filho seu. Recordo a sua imensa alegria, num dia de Março de 1964, ao descobrir numa encruzilhada de caminhos dos Castelli Romani, perto de Nemi, uma imagem de Nossa Senhora com a inscrição ‘Cor meum vigilat’. Foi como que a materialização dos anseios do seu próprio coração. Assim vivia: com o coração vigilante. Como em tudo, também neste aspecto do espírito de família característico do Opus Dei seguia em frente. Sabia intuir com coração paterno e materno se a alguém estava a acontecer alguma coisa, se estava doente, ou tinha uma preocupação especial...

- E, quando se referia a outras pessoas, como se comportava?
- Era muito delicado em tudo o que se referia às outras pessoas: não punha rótulos em ninguém, não dividia as pessoas em boas ou más. Antes de tomar qualquer decisão, pedia que “se ouvissem todos os sinos”, para não se deixar levar por um ponto de vista parcial.

- Uns sublinham o traço de servidor infatigável da Igreja; outros, a sua estirpe de fundador; outros a sua humanidade...
- Não se excluem mutuamente esses aspectos, mais ainda, estão intrinsecamente unidos e partem da resposta generosa do beato Josemaría à vocação recebida e do seu grande amor a Jesus Cristo e à Igreja. Tinha-o há muito gravado no seu coração, e deixou-o escrito muitas vezes como um grito que lhe saía da alma: “Omnes cum Petro ad Jesum per Mariam” (Todos com Pedro a Jesus por Maria!”). O seu grande afã era o serviço à Igreja e nisto se via a missão do Opus Dei.

- Que foi para si o beato Josemaría?
- Que foi para mim? Um pai a quem devo tudo. Não sei o que teria sido a minha vida se não tivesse conhecido o beato Josemaría... Aprendi dele o amor a Deus, à Igreja e ao Papa, a começar cada dia de novo a luta no serviço alegre aos outros, começando pelas pessoas com quem se convive, a superar possíveis cansaços ante a aparente monotonia do afazer quotidiano. Enfim, posso afirmar (e faço-o com um enorme agradecimento ao beato Josemaría) que, graças ao seu exemplo e à sua entrega, sou muito feliz. E espero saber transmitir esta felicidade a muitas pessoas.

- Dentro de alguns dias se saberá provavelmente a data da canonização do fundador do Opus Dei. No dia em que o Papa o proclamar santo que sentimentos experimentará nesse momento?
- Quando chegar esse momento, para o qual não posso prognosticar a data, experimentarei uma alegria enorme e um agradecimento imenso a Deus, à Igreja e ao Papa. E uma petição fervorosa ao novo santo para que ajude os seus filhos e filhas a serem cada dia mais fiéis ao espírito que Deus pôs no seu coração no dia 2 de Outubro de 1928, e para que saibam fazer chegar essa mensagem de paz e de alegria a todos os homens.

Porque Marlies Kücking está convencida de que “quando a Igreja declara que um servo de Deus alcançou a perfeição da santidade, é como se voltasse a ‘canonizar’ (se é que assim me posso exprimir) o espírito que recebeu de Deus e com o qual ele próprio se santificou”.

José Joaquín Iriarte, Mundo Cristiano (Espanha), 1-II-2002