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São Pedro in Gallicantu

J. Gil

Etiquetas: Arrependimento, Igreja, misericórdia, Pegadas da nossa Fé, Papa Francisco, conversão
Pegadas da nossa Fé
O destacamento, o comandante e os guardas das autoridades judaicas prenderam Jesus e manietaram-no. E levaram-no primeiro a Anás, porque era sogro de Caifás, o sumo-sacerdote naquele ano. Caifás era quem tinha dado aos judeus este conselho: «Convém que morra um só homem pelo povo». (Jo 18, 12-14).

Os quatro evangelistas relatam o interrogatório a que os príncipes dos sacerdotes e o Sinédrio submeteram Jesus. Realizou-se em casa de Caifás (cf. Mt 26, 57). Até aí conseguiram chegar duas testemunhas de exceção: Simão Pedro e outro discípulo seguiram Jesus. Este outro discípulo era conhecido do sumo-sacerdote e entrou com Jesus no átrio do sumo-sacerdote. Pedro, contudo, ficou fora, à porta. Saiu então o outro discípulo que era conhecido do sumo-sacerdote, falou com a porteira e Pedro entrou (cf. Mt 26, 57).

Durante o processo, contrastam as atitudes do Mestre e de S. Pedro. Perante as acusações injustas, as incriminações infundadas, os testemunhos falsos, as afrontas... Jesus calou-se. Depois, quando devia proclamar a verdade, afirmou-a com serenidade. Pedro, atemorizado pelos servos, negou que tivesse algo a ver com o Mestre: não o conheço (Lc 22, 58), não sei o que dizes (Mt 26, 70), não conheço esse homem (Mc 14, 71).

No mesmo instante, quando ainda estava a falar, um galo cantou. O Senhor voltou-se e olhou para Pedro. E Pedro recordou as palavras que o Senhor lhe tinha dito: «Antes de o galo cantar hoje, me negarás três vezes». E, saindo para fora, chorou amargamente (Lc 22, 60-62).

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Fotografía: Alfred Driessen
Fotografía: Alfred Driessen
A casa de Caifás
Em Jerusalém, este episódio situa-se na encosta oriental do monte Sião, não muito longe do Cenáculo, quer dizer, num bairro residencial da cidade em tempos de Jesus Cristo, que assomava às torrentes do Cédron e Ginon. Os estudiosos propõem pelo menos duas situações diferentes para a casa de Caifás nessa zona, mas os resultados arqueológicos são mais encorajadores a favor de S. Pedro in Gallicantu. Este santuário eleva-se numa propriedade que pertence aos Agostinhos Assuncionistas desde finais do séc. XIX. As escavações realizadas de 1888 a 1909 e de 1992 a 2002 trouxeram à luz os restos de uma mansão da época herodiana, com moinhos, cisternas e dependências rupestres. Encontrou-se também o umbral de uma porta, em pedra bem lavrada, com uma inscrição assinalando o lugar onde se depositavam esmolas para o perdão dos pecados, e duas coleções de medidas e pesos das que se utilizavam no Templo. Esta casa teria sido venerada mais tarde pelos cristãos, que construíram uma igreja em cima dela no séc. V, de que se conservam alguns pavimentos em mosaico. O centro da basílica era formado por uma cisterna profunda, que inicialmente devem ter sido banhos rituais judaicos.

É provável que um antigo testemunho do séc. VI se refira a este santuário: «do Gólgota a Santa Sião são duzentos passos. Esta é a mãe de todas as igrejas, pois foi fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo e pelos apóstolos. Foi a casa de S. Marcos evangelista. Desde Santa Sião até à casa de Caifás, que agora é a igreja de S. Pedro, são mais ou menos cinquenta passos» Theodosii, De situ Terræ Sanctæ, 7 (CCL 175, 118).
O edifício bizantino sofreu a sorte de muitos outos templos da Terra Santa: destruído no séc. VII pelos persas, foi restaurado; depois de este segundo santuário ter sido destruído no séc. XI, os cruzados construíram uma terceira basílica no séc. XII; também foi arrasada, e mais tarde substituída por um pequeno oratório, que finalmente desapareceu no séc. XIV. Os vestígios de cada etapa ficaram sepultados até 1887, quando os religiosos assuncionistas tomaram conta do terreno.


A igreja
A igreja atual foi consagrada em 1931, e completamente renovada em 1997. Dispõe de dois níveis e uma cripta: na capela superior, coberta por uma cúpula decorada com mosaicos e vitrais, recorda-se o processo de Jesus perante o Sinédrio; no oratório intermédio, onde o solo rochoso começa a aflorar sobre o pavimento, relembram-se as negações de Pedro, o seu choro e o encontro com o Senhor ressuscitado nas margens do lago da Galileia, quando o confirmou na sua missão; mais abaixo, na cripta, encontram-se várias grutas cujo uso através dos séculos é difícil de precisar, e a cisterna venerada desde a época bizantina, conhecida como o poço profundo.

Esta última, por se tratar da parte da casa original que atraiu a atenção dos cristãos desde os tempos mais antigos, revela-se de grande interesse: o primeiro acesso à cavidade, por uma escada e uma porta dupla, mostra que serviu para os banhos de purificação judaicos; em algum momento continuou-se escavando, para aumentar a profundidade e a converter em cisterna, e abriu-se um orifício circular na abóbada. Os sinais acrescentados pelos fiéis - três cruzes gravadas na cintura interna da abertura, além da silhueta de um orante e outras sete cruzes pintadas nas paredes do poço - mostram que no séc. V o lugar era considerado como o presídio onde Jesus aguardou a aurora de Sexta-Feira Santa. Procurando continuar essa tradição, os peregrinos atuais meditam aí sobre os padecimentos de Cristo, seguindo as palavras do salmista:

Lançaste-me na cova mais profunda,
na escuridão do abismo.
Pesa sobre mim a tua indignação,
humilhas-me com tantas aflições.
Afastaste de mim os meus amigos,
fizeste-me insuportável para eles;
estou como um preso sem poder sair.
Os meus olhos apagaram-se de tanto sofrer:
todos os dias te invoco, Senhor,
estendo para ti as minhas mãos. (Sal 88, 7-10.)


No exterior da igreja apreciam-se outros restos arqueológicos, entre os quais se destaca uma rua escalonada perpendicular à encosta. Unia os bairros nobres, na zona alta, com os populares, situados ao longo da torrente do Cédron, perto dos pontos de abastecimento de água: a fonte de Ginón e a piscina de Siloé. Sem dúvida, o caminho existia em tempos do Senhor – embora talvez não empedrado -, e é muito provável que o percorresse em numerosas ocasiões: particularmente, na noite de Quinta-Feira Santa, primeiro acompanhado pelos Apóstolos, para se dirigir do Cenáculo para Getsémani, e depois levado à força pelo tropel de gente que o tinha prendido no horto das Oliveiras, e que o levou a casa do sumo-sacerdote.

Fotografía: Leobard HInfelaar
Fotografía: Leobard HInfelaar
No recinto do santuário, os peregrinos também têm oportunidade de contemplar uma maqueta em grande escala que representa Jerusalém na época bizantina. Reproduz detalhadamente as sete igrejas que foram construídas entre o séc. IV e o VI: o Santo Sepulcro, Santa Sião - que agrupava a Dormição e o Cenáculo -, Santa Maria da Probática - que hoje coincide mais ou menos com Santa Ana -, S. João Baptista - onde estava o palácio de Herodes e se ergue agora a Cidadela -, Siloé - sobre a piscina -, Santa Maria - conhecida como a Nea, também desaparecida - e S. Pedro.

Durante a sua estadia na Terra Santa, em 1994, D. Álvaro del Portillo rezou em S. Pedro in Gallicantu no dia 21 de Março à tarde, na véspera de regressar a Roma.

A misericórdia do Senhor não nos abandona
Quando o galo cantou, o Senhor voltou-se e olhou para Pedro. E Pedro recordou as palavras que o Senhor lhe tinha dito: «Antes de o galo cantar hoje, me negarás três vezes». E, saindo para fora, chorou amargamente (Lc 22, 60-62). Só S. Lucas regista aquele gesto misericordioso de Jesus: o Senhor converteu Pedro - que O tinha negado três vezes - sem lhe dirigir sequer uma censura; só com um olhar de Amor.
- Com esses mesmos olhos, olha Jesus para nós depois das nossas quedas. Oxalá possamos dizer-Lhe, como Pedro, "Senhor, Tu sabes tudo; Tu sabes que eu Te amo!", e mudemos de vida! (Sulco, nº. 964.)


Comentando esta passagem, Sto. Ambrósio explica: «todos aqueles para quem Jesus olha, choram. Na primeira vez, Pedro renegou e não chorou: era porque o Senhor não tinha olhado para ele. Negou-O uma segunda vez e também não chorou, pois o Senhor ainda não tinha olhado para ele. Porém, quando O negou pela terceira vez, Jesus cravou nele o seu olhar, e começou a chorar amarguradamente (...). Pedro chorou e com profunda amargura; chorou para que as suas lágrimas pudessem lavar o seu pecado. Também tu deves chorar a tua culpa com lágrimas se queres conseguir o perdão no mesmo momento e instante em que Cristo te olhe. Se te acontece cair em algum pecado, Ele que está como testemunha no mais íntimo do teu ser, olha-te para te fazer recordar e confessar o teu erro». Sto. Ambrósio, Expositio Evangelii secundum Lucam, X, 89-90.

Embora o pecado mortal destrua a caridade no coração do homem e o afaste de Deus (cf. Catecismo da Igreja Católica, nº. 1855), a misericórdia do Senhor não nos abandona, a conversão é sempre possível: «Convido todo o cristão – afirma o Santo Padre -, em qualquer lugar e situação em que se encontre, a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele (…). Quando alguém dá um pequeno passo em direção a Jesus, descobre que Ele já aguardava de braços abertos a sua chegada. Este é o momento para dizer a Jesus Cristo: «Senhor, deixei-me enganar, de mil maneiras fugi do vosso amor, mas aqui estou novamente para renovar a minha aliança convosco. Preciso de Vós. Resgatai-me de novo, Senhor; aceitai-me mais uma vez nos vossos braços redentores.» Como nos faz bem voltar para Ele, quando nos perdemos! Insisto uma vez mais: Deus nunca se cansa de perdoar, somos nós que nos cansamos de pedir a sua misericórdia» Francisco, Exort. Apost. Evangelii gaudium, 24-XI-2013, nº. 3.

Enquanto pelejamos - uma peleja que durará até à morte - não excluas a possibilidade de que se levantem, violentos, os inimigos de fora e de dentro. E, como se fosse pequeno o lastro, às vezes, acumular-se-ão na tua mente os erros cometidos, talvez abundantes. Em nome de Deus te digo: não desesperes. Quando isso suceder - não tem necessariamente que suceder, nem será o habitual - converte essa ocasião num motivo para te unires mais com o Senhor; porque Ele, que te escolheu como filho, não te abandonará. Permite a prova, para que ames mais e descubras com mais clareza a sua contínua protecção, o seu Amor (...).
Para a frente, aconteça o que acontecer! Bem agarrado ao braço do Senhor, considera que Deus não perde batalhas. Se, por qualquer motivo, te afastas d'Ele, reage com a humildade de começar e de recomeçar; de fazer de filho pródigo todos os dias, inclusive repetidamente nas vinte e quatro horas do dia; de reconciliar o teu coração contrito na Confissão, verdadeiro milagre do Amor de Deus. Neste Sacramento maravilhoso, o Senhor limpa a tua alma e inunda-te de alegria e de força para não desanimares na tua luta e para voltares de novo sem cansaço a Deus, mesmo quando tudo te pareça obscuro. Além disso, a Mãe de Deus, que é também nossa Mãe, protege-te com a sua solicitude maternal e dá-te confiança no teu caminhar. Amigos de Deus, nº 214.

Os evangelistas não narram se S. João permaneceu na casa de Caifás ou saiu atrás de S. Pedro, nem sequer sabemos onde cada um se dirigiu depois. Mas a S. João encontramo-lo mais tarde ao pé da Cruz, junto a Nossa Senhora: antes, só, não podias... - Agora, recorreste à Senhora, e, com Ela, que fácil! Caminho, nº. 513.



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